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Em dezembro de 2000, durante o
Congresso Mundial de Sociedades de Física, em Berlim,
mais de 40 sociedades ali representadas aprovaram uma
proposta para declarar 2005 como Ano Mundial da Física
(AMF). Em outubro de 2002, a União Internacional de
Física Pura e Aplicada (IUPAP, na sigla
internacionalmente conhecida), unanimemente aprovou uma
resolução no mesmo sentido. Em novembro do ano seguinte,
a 32ª sessão da Conferência Geral da Unesco seguiu os
mesmos passos. Ao que se sabe, esta é a primeira vez que
uma decisão dessa natureza, na área científica, assume
proporções internacionais, e ela notabiliza-se ainda
mais pela sua motivação: o centenário dos
extraordinários trabalhos publicados por Albert Einstein
em 1905.
Já faz algum tempo que a mitificação de
Einstein vem se processando, e neste processo ele
transita no imaginário popular, ora como o autor da
Teoria da Relatividade, ora como colaborador na
fabricação da bomba atômica, ora como incorrigível
amante extraconjugal, e até mesmo como plagiador.
Historiadores da ciência e outros profissionais da área
estão cientes de que o AMF será uma boa oportunidade
para separar o joio do trigo neste intricado cenário em
que a mitificação transforma-se em mistificação.
Atualmente, a comunidade científica não é como
aquela do início do século 20, em que não mais do que
uma dúzia de bem dotados entendiam a Teoria da
Relatividade. Hoje, qualquer bom aluno de física é capaz
de entendê-la. Mas permanece inédita uma precisa
descrição de como Einstein chegou aos seus
extraordinários resultados de 1905. E aqui, mais uma
vez, monta-se o palco propício à mistificação, qual
seja, a de que tudo saiu como num passe de mágica,
apenas fruto de um lampejo de genialidade. Embora o
simples relato do que teria ocorrido há um século induza
esta versão equivocada, a história não é bem assim. Mas,
para bem compreendê-la, é indispensável o conhecimento
de todo o seu contexto. Para começar, o que estaria
fazendo Albert Einstein há um século, no início do seu
"annus mirabiles"? Nos documentos oficiais, hoje
pertencentes à Universidade Hebraica de Jerusalém, não
há qualquer registro entre setembro de 1904, quando ele
foi efetivado no cargo de técnico de terceira classe do
Escritório Suíço de Patentes, e o início de março de
1905, quando ele publicou oito pequenos comentários
sobre trabalhos de outros cientistas.
Em 14 de
março, Einstein comemorava seus 26 anos de idade com
pelo menos duas grandes preocupações: ainda não
conseguira o desejado cargo de professor universitário
assistente e não obtivera aprovação da sua tese de
doutorado, que havia sido rejeitada pela Universidade de
Zurique em 1901. O Escritório de Patentes lhe pagava um
salário que atendia às suas baixas expectativas
materiais, mas o cargo não estava à altura da sua
ambição intelectual. Quatro dias depois do seu
aniversário, a vida de Einstein tomou um repentino e
inesperado rumo. E, em menos de oito meses, a comunidade
científica internacional testemunhou o surgimento de uma
extraordinária revolução, como tal percebida apenas
alguns anos depois.
No dia 18 de março, Einstein
enviou à prestigiosa revista alemã Annalen der Physik um
artigo no qual ele explicava o efeito fotoelétrico,
encerrando um período de 18 anos de fracasso de todos os
cientistas que tentaram explicá-lo. Menos de um mês
depois, precisamente no dia 30 de abril, ele concluiu a
nova versão de sua tese de doutorado, que seria aprovada
pela Universidade de Zurique em julho do mesmo ano. No
dia 11 de maio, ele submete um artigo no qual explica o
movimento browniano, um fenômeno que desafiava a
inteligência humana fazia mais de 70 anos. Em 30 de
junho, Einstein envia o trabalho ao qual o imaginário
popular vai definitivamente associar sua figura mítica:
o primeiro trabalho sobre a teoria da relatividade. Em
setembro, é a vez do segundo trabalho sobre a
relatividade, no qual ele deduz a famosa equação E=mc2.
O efeito fotoelétrico tinha a ver com a teoria
eletromagnética. Tratava-se da emissão de elétrons
quando um material metálico era irradiado com luz
ultravioleta. O movimento browniano referia-se ao
movimento desordenado de pequenas partículas suspensas
em um líquido, e a teoria da relatividade foi motivada
pelo conflito que Einstein percebeu entre o princípio da
relatividade de Galileu e a teoria eletrodinâmica de
Maxwell. Ao leitor menos atento parece que Einstein
migrava entre assuntos díspares, produzindo artigos sem
qualquer conexão. Na realidade, era bem o contrário. O
movimento browniano foi resolvido pela utilização de
princípios básicos da termodinâmica. Também dessa área,
precisamente da teoria de Planck, Einstein tomou
emprestado o conceito de que a radiação é emitida em
porções bem definidas, denominadas quantum, para
explicar o efeito fotoelétrico, cujas tentativas até
então fracassadas baseavam-se na teoria de Maxwell. A
luz seria constituída de partículas, hoje denominadas
fóton, e a interação destas com os elétrons dos
materiais seria semelhante às simples interações que
observamos entre bolas de bilhar. Esta revolucionária
idéia resultou numa equação impressionantemente simples,
e valeu a Einstein o Prêmio Nobel de Física de 1921.
Outra característica peculiar de Albert Einstein
era sua persistência na busca de soluções. Por exemplo,
as primeiras idéias sobre a relatividade surgiram de um
devaneio juvenil; aos 16 anos, ele tentou imaginar como
lhe apareceria um feixe de luz, se ele o seguisse com a
velocidade da luz. Não encontrou um professor que lhe
apresentasse uma boa resposta. Foram necessários mais de
10 anos para que ele chegasse a uma explicação, que só
foi possível depois da sua Teoria da Relatividade
Restrita. Depois que elaborou sua Teoria da Relatividade
Geral, por volta de 1915, Einstein passou a trabalhar na
teoria do campo unificado. Fixou-se neste problema, sem
sucesso, até o dia da sua morte, em 1955.
Enfim,
diferentemente dos seus contemporâneos, Einstein
percebia similaridades nos princípios básicos em
contextos aparentemente desconexos, e foi essa
característica ímpar que resultou na revolução
científica do século 20. A constante que Planck
arbitrariamente usou para explicar a radiação de corpo
negro, um tema na área da termodinâmica, foi usada por
Einstein para explicar o efeito fotoelétrico, e logo
seria incorporada ao modelo atômico proposto por
Rutherford e desenvolvido por Niels Bohr. O resto da
história é a tecnologia que usufruímos atualmente.
Não há quem acredite que deixaríamos de ter o
que hoje temos, se Einstein não tivesse realizado seus
trabalhos. Provavelmente outros o fariam. Não é possível
determinar quantos e nem em quanto tempo, mas não resta
dúvida de que a teoria quântica e tudo que daí resultou
haveria de ser descoberto. O impressionante é que esta
revolução foi deflagrada por uma só pessoa, num
intervalo de tempo inferior a um ano.
Membro da Comissão Organizadora do Ano
Mundial da Física na UFRGS, doutor em física,
pesquisador |