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Boletim [024/2012] Sobre físicos fora do mundo acadêmico (por Prof. Thadeu Penna - Instituto de Ciências Exatas/UFF) Tenho acompanhado com especial interesse a discussão sobre o trabalho de físicos fora da área acadêmica, nos recentes boletins 014/2012 (Dr. Henrique Marks) e 021/2012 (Enio Magalhães Freire). Eu gostaria de colocar algumas experiências e pontos de discussão. Eu trabalho em Física Computacional desde 1988, atualmente tenho me dedicado ao estudo dos Sistemas Complexos. Recentemente me mudei para o Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal Fluminense, em Volta Redonda, deixando provisoriamente o Instituto de Física da UFF, em Niterói. Em Volta Redonda temos o curso de graduação em Física Computacional, que seguem as sugestões do Dr. Henrique Marks, no que diz respeito às linguagens de programação adotadas e noções de eletrônica embarcada, com a preocupação de inserção de nossos estudantes também fora do meio acadêmico. Porém a experiência que quero relatar é principalmente relacionada à pós-graduação. Enquanto orientador no IFUFF, tive a oportunidade de trabalhar com vários estudantes que trabalham hoje fora da área acadêmica, sendo que alguns trabalham em bancos, em estatais, ou têm sua própria empresa. Acredito que a facilidade de integração nesta área deve-se, em boa parte, ao caráter interdisciplinar das pesquisas realizadas no grupo. Trabalhamos com economistas, fisiólogos e cientistas da computação procurando falar a mesma língua e isto claramente é uma vantagem ao se tentar a vida fora da Academia. Enquanto ouço várias manifestações que interdisciplinaridade é importante, que deva ser incentivada, etc., vejo poucas ações efetivas neste sentido e, na verdade, algumas no sentido contrário. Interdisciplinaridade não se resume à aplicação de técnicas de Física Teórica em Física da Matéria Condensada ou Física Nuclear em Física Médica, vai muito além disto. Darei um exemplo concreto: as revistas interdisciplinares ou especializadas em outrasáreas são sistematicamente avaliadas, pelo comitê da Física, com Qualis menores que de suas próprias áreas de origem. Tenho um artigo publicado no "Knowledge and Information Systems (KAIS)" com quatro autores da área de computação. A revista tem parâmetro de impacto sistematicamente maior que 2,0 e é B1 no Qualis da Computação. Recentemente a revista foi qualificada como B3 pelo comitê da Física. Respeitar a avaliação do comitê da área principal é a mínima atitude que poderia se esperar de um comitê que incentivaria a interdisciplinaridade. Infelizmente este não é o único caso de avaliação interdisciplinar desfavorável, ao contrário, parece a regra geral. Por outro lado, vejo como os físicos são bem vindos nas outras áreas. Somente neste último mês tive a felicidade de participar em duas bancas de trabalhos orientadas por físicos em programas diversos, uma no Mestrado em Modelagem Computacional e Tecnologia Industrial, no SENAI-CIMATEC em Salvador, e outra no Programa de Pós-Graduação em Estatística e Experimentação Agropecuária, na UFLA, Lavras - MG. Outro ponto que considero importante é que alguns destes alunos foram contratados durante o doutorado. Em um estágio inicial de colaboração é natural que o mercado não faça questão do doutorado - o que pode acarretar custos adicionais. Os estudantes não foram contratados pelo impacto ou quantidade de suas publicações, mas pela capacidade de resolver problemas com métodos diferenciados. Alguns dos estudantes foram contratados com salários até do dobro do meu próprio salário. Isto é avaliado como fracasso e evasão na pós-graduação, da mesma forma que um aluno que abandona o curso por quaisquer outras razões. Como sou amigo destes alunos até hoje, imagino que eles não me consideram como destruidor de carreiras. Eu fico feliz em vê-los assim, mas mal avaliado pelos critérios da pós-graduação. Se realmente achamos que ter físicos fora da Academia é algo salutar, acho que é hora de tomar atitudes que realmente favoreçam que isto ocorra. --
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