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Boletim [001/2012] O escárnio das elites (pseudo) intelectuais (por Elcio Abdalla - IF/USP) O Brasil é uma terra de incrível pluralidade. Por vezes, este cadinho de pessoas e caminhos leva a uma sociedade ímpar, na medida em que proporciona um convívio social e psicológico além de qualquer outra parte na Terra. Por outro lado permite, em outra vertente, posições cuja ética jamais poderia ser defendida em locais civilizados, e que, no entanto, são usadas e abusadas por pessoas que, de modo absolutamente incrível, assumem um discurso progressista. Sobram os exemplos, a começar pelo Congresso Nacional, dos que, eleitos com discurso de igualdade beirando o igualitarismo, lambem-se com os chocolates importados e vinhos de classe especial assim que se brindam com o poder. Entulho humano, usam o discurso para oferecer pão ao povo, usam no entanto o dinheiro para comprar em aeroportos, em lojas de “delikatessen”. Não estamos, no interior de nossas academias e institutos, até mesmo de nível de excelência, isentos da ignomínia. Os defensores da “res publica” usam-na privadamente (esta última palavra eu poderia utilizar em trocadilho mais infame). Mais especificamente, não sou contrário a que, um docente, tendo terminado seu trabalho em uma Universidade de prestígio, já em nível avançado da carreira, possa dar sua contribuição em outra instituição em que possa germinar sua semente acadêmica. Nada mais natural que o humano querer recomeçar, uma espécie de reencarnação em uma só vida. No entanto, muito diferente, é aproveitar-se dos meandros obscuros da legislação, até mesmo, e pior ainda, pelos conhecimentos políticos de familiares e amigos aboletados ao poder, e dobrar seus salários, em um escárnio aos colegas que trabalham duro para manter suas atividades com um salário honesto. No caso do indivíduo ter cargos representativos, deve, obrigatoriamente, abdicar dos mesmos. Caro Elcio, demais sócios da SBF e leitores do Boletim Todos conhecem a brincadeira em que pessoas dançam em torno de um círculo de cadeiras vazias, todas equivalentes sob condições de contorno periódicas, até que se pare a música. Os mais rápidos sentam-se, os demais sobram. Na "dança das cadeiras brasiliense" o número de pretendentes também é maior que o número de postos a serem preenchidos, a diferença é que as cadeiras não são todas equivalentes, há o primeiro escalão, o segundo, etc. Como o número de cadeiras dos vários escalões oficiais ainda não é suficiente para acomodar os pretendentes, de forma sub-reptícia se incorporaram cadeiras adicionais de instituições não governamentais, nas quais os pretendentes ficam provisoriamente sentados a esperar a sua vez nas oficiais. Enquanto isso, dirigem as ações das instituições que presidem para os desígnios do poder brasiliense de plantão. Na nossa área de atuação, as sociedades científicas são os alvos, já foram fagocitadas por esse sistema a ABC, a SBPC e outras, há cerca de uma década. Até pouco mais de dois anos, a SBF conseguiu manter-se à margem dessa triste sina apesar de várias tentativas. Nessa época, infelizmente, capitulou. Acho que essa é a explicação para não mais termos "nossas academias e institutos, até mesmo de nível de excelência, isentos da ignomínia", do "entulho humano" que você, Elcio, muito bem cita. Como a SBF foi fagocitada por essa ignomínia há pouco tempo, devemos reverter esse processo destrutivo. Já! Como conselheiro ou membro da diretoria da SBF, tenho nas últimas décadas defendido com veemência que a SBF deva necessariamente abdicar de participações em órgãos governamentais. Por exemplo, não deve jamais indicar nomes para quaisquer comissões dos órgãos de fomento, ministérios, prêmios oferecidos pelo governo, etc. Os membros de sua diretoria ou conselho não devem jamais participar, mesmo como consultores externos, das atividades desses órgãos. Muito menos colegas que costumam participar da citada "dança das cadeiras brasiliense" (alguns até com boas intenções) devem candidatar-se aos cargos da diretoria e do conselho da SBF. Infelizmente há os oportunistas. É bom que os sócios verifiquem, na hora de votar, esse detalhe fundamental. Paulo Murilo Castro de Oliveira - IF/UFF |