Sociedade Brasileira de Física 

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Boletim [028/2010]


Carta-protesto do Prof. Constantino Tsallis


Prezado Presidente da SBF,
prezados Membros da Diretoria e do Conselho da SBF,
prezado Coordenador do Comitê de Programa do I SIMPÓSIO NACIONAL DE AVALIAÇÃO CIENTÍFICA descrito no e-mail circular do 03/08/2010 da SBF,

É com total perplexidade que tomo conhecimento do que é aqui abaixo comunicado aos Membros da SBF (entendo que seja nesta qualidade que recebi esta mensagem).

Em 08/01/2008 enviei à SBF carta aberta intitulada

AS TEORIAS DE CAMPO MÉDIO SÃO SIMPLES, ELEGANTES ... E QUASE SEMPRE ERRADAS! Ou PRESERVEMOS NOSSOS “ORNITORRINCOS”!

(ver Anexo 1) focalizando precisamente a avaliação do mérito científico praticada no Brasil. As palavras finais de minha carta do 08/01/2008 foram

"Proponho assim que a SBF organize, no seio de nossa comunidade, alguns debates e atividades semelhantes, visando aprimorar o nosso entendimento destes assuntos, e consistentemente sugerir algumas linhas gerais para as regras utilizadas costumeiramente pelo próprio Comitê."

Esta carta foi amplamente reproduzida e comentada na mídia geral ("Estado de São Paulo" do 24/02/2008, ...) e acadêmica ("Jornal da Ciência/SBPC" do 09/01/2008, do 27/02/2008, do 28/02/2008, do 11/03/2008, "Boletim da SBF" do 09/01/2008, do 27/02/2009, novamente do 27/02/2008, do 13/03/2008, do 31/03/2008, "Notícias da Academia Brasileira de Ciências" do 18/01/2008, do 10/03/2008, "Agência CT do MCT" do 10/03/2008, ....), e motivou dúzias de pronunciamentos individuais e institucionais. Tomando conhecimento destes fatos, e apropriadamente sinalizando a importância da questão em pauta, o então Presidente do CNPq, Prof. Marco Antonio Zago, me convidou ao CNPq/Brasília para conversar pessoalmente. Por oportuno, convidou também outras pessoas à reunião: os Profs. Alaor Chaves e Paulo Murilo de Castro Oliveira (então respectivamente Presidente e Vice-Presidente da SBF), o Prof. Jailson Bittencourt de Andrade, e outros colegas.

Nesta reunião foi acordado que uma Comissão presidida pelo Presidente da SBF elaboraria um documento contendo recomendações sobre avaliação científica. Durante longas semanas, várias pessoas trabalhamos meticulosamente na elaboração do documento. Houve inclusive uma reunião presencial desta Comissão no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas no 23/04/2008. Desta reunião participaram os Profs. Alaor, Paulo Murilo, Jailson, e outros colegas (ver Anexo 2). O documento final foi enviado para o Presidente do CNPq pelo Prof. Alaor, como combinado. O Prof. Zago agradeceu este documento em mensagem do 05/05/2008, e comunicou que esta questão estava sendo longamente debatida no âmbito do Conselho Deliberativo do CNPq.

A seguir, no 05/03/2008, foi organizada no CBPF uma Mesa Redonda sobre o tema "A Ciência brasileira hoje: O que falta para atingirmos reconhecimento de excelência?". Participaram dela o Presidente da CAPES, Prof. Jorge Almeida Guimarães, o Presidente da Academia Brasileira de Ciências, Prof. Jacob Palis, o Prof. Egberto Gaspar de Moura, representante da Faperj, o Prof. Luiz Hildebrando Pereira da Silva, Diretor do Centro de Pesquisas de Medicina Tropical, o Prof. Ricardo M.O. Galvão, Diretor do CBPF, e eu próprio. As exposições foram seguidas de debate público.

A questão da metodologia usada pelos orgãos públicos de apoio à pesquisa é notoriamente da maior relevância para a ciência, a tecnologia e a inovação no Brasil.

Tendo pessoalmente dedicado um tempo apreciável a esta questão, como pode-se facilmente imaginar pelo acima relatado, e tendo sido minha carta aberta à SBF um dos fatores que originaram todo este movimento, considero uma tremenda descortesia, assim como um procedimento deploravemente ineficiente --- ou então coisas mais graves, ou mais levianas ---, não ter sido convidado pela SBF para contribuir concretamente neste processo, nem sequer me convocando em tempo útil para integrar o dito Comitê da SBF coordenado pelo Prof. Alaor.
Creio eu que o tempo que as pessoas dedicam voluntária e graciosamente para causas coletivas relevantes para a ciência --- a Física no presente exemplo --- do país, e a experiência assim adquirida, tem algum valor, desprezado na presente ocasiâo.

Nao é assim que se faz mudar -- para melhor! --- o patamar qualitativo da Ciência e da Tecnologia do Brasil.

Atenciosamente,

Constantino Tsallis


Recife, 09 de agosto de 2010.

Ilmo. Sr.
Prof. Constantino Tsallis
Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas
Rua Dr. Xavier Sigaud, 150 - Urca
22290-180 Rio de Janeiro - RJ - Brasil
tsallis@cbpf.br

Re: esclarecimentos sobre preparação do Simpósio Nacional de Avaliação Científica (SNAC)

Caro Prof. Tsallis,

Em resposta a sua Carta Protesto à Diretoria e Conselho da SBF, gostaria de em nome da Diretoria da SBF esclarecer os seguintes pontos:

- o Simpósio Nacional de Avaliação Científica (SNAC) a ser realizado nos próximo dia 20 de setembro, em Brasília, é uma iniciativa da SBF, em parceria com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e corresponde a uma proposta originalmente encaminhada às agências de financiamento pela Diretoria anterior da SBF, através de seu então Presidente, Prof. Alaor Chaves;

- como tal, para sua efetiva realização neste ano de 2010, a atual Diretoria, com aprovação do Conselho, deu ao SNAC todo o apoio logístico necessário, tendo ainda –
desde o início do processo de concepção do Simpósio – indicado o Prof. Alaor Chaves para sua coordenação e preparação, não tendo, porém, participação ou ingerência direta sobre sua forma ou programação;

- porém, tendo em vista a manifestação de V.Sa., e em reconhecimento a suas contribuições importantes para o debate sobre a questão da Avaliação Científica no Brasil, gostaria de convidá-lo para participar do SNAC na condição de audiência qualificada, em uma extensão natural do convite similar feito aos membros da Diretoria e do Conselho da SBF;

- ainda, considero importante recordar que a urgência da discussão do tema da avaliação é um sentimento prevalente em nossa comunidade, não sendo primazia ou exclusivo de apenas um grupo de pesquisadores. De fato, a necessidade de aprimorar os mecanismos de Avaliação Científica das agências de fomento é um tema que de há muito vem sendo abordado em vários fóruns, em diversas cartas ao Boletim da SBF, em discussões informais nas mais variadas situações e em reuniões de membros da comunidade;

- nesse contexto, é opinião da Diretoria da SBF que o tema transcende a questão da avaliação dos indivíduos, uma vez que para muitos dos protagonistas destas discussões, o desafio mais relevante é o de como transformar os mecanismos de avaliação de modo a torná-los firmes alavancas para um salto qualitativo na produção científica brasileira;

- como exemplo, recordo ainda que esse tema já foi extensivamente discutido no estudo publicado pela SBF em 2005, "Física para o Brasil", assim como no documento encomendado pela CAPES, "Ciência para um Brasil Competitivo - o papel da Física", publicado em junho de 2007;

- muito antes ainda, outros membros da nossa comunidade já haviam se manifestado de formas variadas. Foi exatamente por reconhecer o caráter mais geral dessa discussão que, apesar de ter partido da SBF a proposta de organização do SNAC, desde o início ficou acertada a participação da SBPC e da ABC, entidades que contribuíram para sua formatação ao indicar ao Prof. Alaor Chaves nomes de possíveis palestrantes;

- É pensamento de toda a Diretoria da SBF que, para mudar o patamar qualitativo da Ciência e da Tecnologia do Brasil, se faz necessário a contribuição de cada membro de nossa comunidade, de forma sincera, construtiva e humilde, como convém a um debate democrático.

Certo de que estes esclarecimentos contribuirão para o melhor entendimento do espírito com que tem sido preparado o SNAC, esperamos sua presença e contribuição para o sucesso do Simpósio.

Atenciosamente,

Prof. Celso Pinto de Melo
Presidente