Sociedade Brasileira de Física 

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Boletim [010/2010]

Associação entre a Springer e o Brazilian Journal of Physics (Silvio R. A. Salinas, IFUSP)


Na última reunião do Conselho da SBF foi apresentada uma proposta da Springer para associação com o BJP, contemplando duas alternativas: (i) o BJP seria incluído no SpringerLink, e a Springer se encarregaria da distribuição internacional, mantendo o acesso gratuito para sócios da SBF; (ii) a Springer se encarregaria tanto da distribuição quanto de todos os trabalhos de produção do BJP. Nos dois cenários, permaneceria com a SBF a definição da política editorial, incluindo a escolha dos editores e os critérios de aceitação de artigos. Talvez não haja outras alternativas, pois ao longo dos anos a SBF não conseguiu angariar maior apoio para o BJP e nem superar métodos antigos de produção artesanal, e os nossos congêneres globais – chineses e indianos, por exemplo – já partiram para alianças com empresas editoriais. Aqui no Brasil os químicos resistem, prestigiam as suas revistas, mas os matemáticos já aderiram à Springer há vários anos. A decisão do Conselho vai esbarrar na questão do acesso gratuito, representada pelo SCIELO, com inserção internacional cada vez maior, como foi reconhecido em editorial recente de Science (volume 325, 21 de agosto de 2009).

O BJP começou a circular logo depois da fundação da SBF, passando por várias fases. Há uns dez anos já se prenunciava o desinteresse da comunidade, mas nessa época o BJP acabou sendo indexado pelo ISI, a visibilidade aumentou, e houve uma sobrevida que agora parece esgotada. A produção eletrônica do BJP, incluindo gerenciador online e mecanismo de busca dos números anteriores, proporcionou rapidez e visibilidade, mas de certa forma aprofundou os problemas. O atual editor continua trabalhando nas mesmas bases artesanais dos seus antecessores, em condições inadequadas para uma “revista global”. Além disso, nos últimos anos a prática da publicação científica mudou muito no país e no resto do mundo. Há um desinteresse claro dos colegas brasileiros pelas publicações nacionais, que reflete a maior – e absolutamente necessária – inserção internacional da física, mas ao mesmo tempo revela certo descaso ou descuido com a cultura do país ou talvez com a própria “cultura científica”. Ao mesmo tempo, é impressionante a quantidade de artigos enviados ao BJP por autores do “mundo em desenvolvimento”, países da Ásia e da África. Em boa parte são artigos de péssima qualidade, acabam rejeitados, mas tornam quase infernal a tarefa do editor. Num número típico de 2009 (volume 39, número 3), há 8 artigos de autores brasileiros e 10 artigos de autores de países asiáticos; mas nenhum dos autores brasileiros pertence a “cursos nível 7” na escala da Capes. Em resumo, os nossos colegas publicam cada vez menos no BJP e não valorizam a publicação nacional. A história é complicada, mas se relaciona com várias manifestações – sobre quantidade versus qualidade, esquemas de avaliação, desempenho em concursos – que têm aparecido no Boletim eletrônico da SBF.

É instrutivo comparar o BJP com alguns congêneres editados em “países emergentes”. Escolhemos dois exemplos: (i) “Pramana – Journal of Physics”, publicado mensalmente pela Indian Academy of Sciences, que está na rede desde 1998, mas que acaba de se associar à Springer; (ii) “Revista Mexicana de Física”, editada em papel pela Sociedade Mexicana de Física há mais de cinquenta anos, disponibilizada gratuitamente na rede a partir de 2002. A tabela abaixo registra a evolução do índice de impacto do BJP, calculado pelo JCR do ISI, em comparação com os índices do Pramana, PRA, e da Revista Mexicana de Física, RMF.

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

BJP

0.671

0.719

0.678

0.277

0.435

0.445

0.494

0.478

0.512

PRA

0.314

0.283

0.324

0.333

0.301

0.380

0.417

0.383

0.274

RMF

0.168

0.154

0.149

0.203

0.229

0.123

0.285

0.152

0.262

Estamos ligeiramente melhor, mas no mesmo barco, com números bem inferiores aos patamares de Physical Review (que se situam entre 2 e 5) ou das revistas européias (Journal of Physics tem índices entre 1.5 e 2). Os índices um pouco mais expressivos do BJP entre 2000 e 2002 podem ser atribuídos a edições especiais, de caráter temático, com bons trabalhos convidados de autores do Brasil e do exterior (alguns artigos de autores estrangeiros no BJP são muito bem citados). A queda em 2003 se deve a um aumento significativo do número de artigos e a uma política liberal de publicação de “proceedings” de reuniões. Os artigos dos “proceedings” de diversas reuniões nacionais têm pouquíssimas citações, inclusive quando os autores brasileiros são bem citados internacionalmente! Em suma, tanto no Brasil quanto na Índia ou no México ainda não se encontrou uma forma de valorizar as revistas nacionais, ou de conciliar a revista nacional, publicada por uma sociedade científica, aberta na rede, com as exigências de qualidade e exposição globais.

Os editores de Pramana aderiram à Springer, que aparentemente está se encarregando apenas da distribuição internacional, pois a revista continua disponível no site da Indian Academy of Sciences. Diversas revistas chinesas se vincularam ao Institute of Physics, IOP, ganhando visibilidade e exposição internacional, mas com acesso restrito. O “Chinese Physics B”, principal revista chinesa da área de física, sucessora da antiga “Acta Physica Sinica” e publicada em inglês pela Sociedade Chinesa de Física desde 1992, foi disponibilizada eletronicamente no portal do IOP em 2001, tendo atingido em 2007 um índice de impacto superior a 2. Algumas revistas chinesas mais especializadas, inclusive uma revista de “cartas”, também aderiram ao IOP, atingindo índices de impacto respeitáveis. O exemplo chinês reflete o crescimento impressionante do país, mas tem que ser visto com cautela, pois a pressão e as recompensas para publicar, com todos os seus problemas colaterais, são bem maiores do que no Brasil (ver, por exemplo, matéria recente em Nature, 463, p. 142, 12 de janeiro de 2010).

A questão do acesso gratuito é o grande problema colocado pela associação das revistas científicas com uma empresa editorial. Há uns dois ou três anos eu mesmo tentei uma negociação com a Elsevier, que avançou muito bem, mas que acabou esbarrando na nossa participação no SCIELO. A proposta da Springer fatalmente vai esbarrar no SCIELO e na colocação do BJP, de forma aberta, no site da SBF. Acho que é importante pensar sobre as consequências dessa opção. Os matemáticos brasileiros aderiram à Springer há vários anos, não disponibilizam a revista no site da SBM, e estão fora do SCIELO (vejam o Bulletin of the Brazilian Mathematical Society, com parâmetro de impacto respeitável, além de uma das melhores classificações na sua área entre as revistas brasileiras no ISI). Mas os químicos continuam no SCIELO, e se orgulham do apoio às suas revistas, o Journal of the Brazilian Chemical Society, com índices de impacto entre 1 e 1.5, e Química Nova, publicada quase exclusivamente em português, que já atingiu índices bem mais expressivos do que o BJP.

Quais seriam as nossas alternativas fora da Springer? Qual a mágica dos químicos para apoiar as publicações nacionais? Mesmo na hipótese de adesão à Springer, o futuro é incerto se não houver mudanças mais sérias, principalmente na “cultura da área”. Em primeiro lugar, teria que se formar uma corrente de apoio a publicações no país, tanto no BJP quanto na Revista Brasileira de Ensino de Física, em inglês ou em português, que fosse representativa de pelo menos uma parcela da nossa produção acadêmica. O corpo editorial das nossas revistas deveria ser amplamente renovado, com o convite e apelo à participação de colegas das gerações mais jovens, que despontaram nos últimos dez ou mais anos. Não se admitiriam, por exemplo, promoções a pesquisador 1 do CNPq, ou a própria manutenção da bolsa de pesquisa, na ausência de publicações no país! E nem se admitiriam “cursos nota 7” na CAPES sem evidências claras de publicação nacional. Seria ideal pensar numa cultura de avaliações acadêmicas de qualidade, distanciando-se da ênfase desproporcional que tem sido dada aos critérios numerológicos. O acerto também passaria pela profissionalização do trabalho editorial na SBF, e pelo apoio diferenciado do programa editorial do CNPq a um bloco de revistas brasileiras de padrão internacional.

Talvez a “cultura da área” tenha ainda que lidar com obstáculos mais profundos. Em trabalho famoso da primeira metade do século XX, Walter Benjamin atribui uma “aura” de significação às obras de arte, que estaria se desvanecendo na era moderna da “reprodução mecânica”. Os (bons) trabalhos científicos têm o mesmo tipo de aura, que também estaria em risco na época da produção em série, quando se publicam artigos aos borbotões, com pouco apreço pelo alcance ou pela qualidade. Além disso, há uma espécie de “questão nacional”, muito pouco resolvida na área de física. Vale a pena lembrar o nosso grande Anísio Teixeira, que já pensava numa universidade brasileira “profundamente nacional, mas intimamente ligada às universidades de todo o mundo, à grande fraternidade internacional do conhecimento e do saber”, como se pode igualmente pensar na ciência e na produção científica, absolutamente internacionais, mas profundamente ligadas ao país. Puro sonho, que talvez acabe se diluindo na própria mudança dos paradigmas de publicação científica, como já vem sendo apontado pelo meio milhão de artigos depositados nos arquivos de Cornell.

Silvio R. A. Salinas, IFUSP, 30/1/2010.

PS – Concluída a redação desse texto, notei o editorial de Science (327, 22 de janeiro de 2010) sobre o relatório de comissão especial do Congresso americano propondo que todos os artigos científicos associados a pesquisas financiadas por agências do governo sejam disponibilizados ao público. Se a proposta vingar, o futuro aponta na direção dos portais gratuitos das sociedades científicas ou de organizações como o Scielo.