Sociedade Brasileira de Física 

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Boletim [005/2010]

Ainda sobre avaliação (Vicente Pleitez)


Gostaria de emitir minha opinião face à discussão iniciada recentemente sobre as dificuldades na avaliação dos pesquisadores na área de Física e Astronomia. Veja-se as opiniões dos Profs. George Matsas - http://www.sbf1.sbfisica.org.br/boletim1/msg189.htm, Paulo Murilo Castro de Oliveira - http://www.sbf1.sbfisica.org.br/boletim1/msg190.htm , e Roberto Faria - http://www.sbf1.sbfisica.org.br/boletim1/msg192.htm. Estes professores observaram deficiências na avaliação da produção científica de pesquisadores para a concessão de bolsas e auxílios, seja pelo esquema usado por comitês assessores para a discussão dos projetos, seja pelo uso inadequado dos índices bibliométricos, ou ainda pelos sistemas de pós-graduação nas universidades. Essa é uma questão da maior importância no fomento à pesquisa que não se restringe apenas à Física e à Astronomia. Contudo, como minha atuação é em Física de Partículas Elementares, as observações a seguir baseiam-se na experiência adquirida nessa área.

De fato, as agências de fomento têm critérios que passam uma mensagem equivocada. E essa mensagem já está influenciando o pensamento e as atitudes de nossos estudantes. Entre os jovens escutam-se frases do tipo: “onde tem `papers´, aí estou”; poucas vezes ouvi: “onde dão boa formação científica, aí estou”. Porque a mensagem transmitida lá de cima é: os artigos são um fim em si mesmo, e não o resultado natural de um certo período dedicado ao estudo de problemas com certa relevância científica. Se resultar um trabalho seminal, ou não, vai depender da capacidade das pessoas envolvidas (e um pouco de sorte); mas, mesmo resultados modestos, como é o caso da maioria, devem ser obtidos visando a uma boa formação dos estudantes para que eles possam superar seus mestres se tiverem essa capacidade.

Acredito que os órgãos de fomento precisam não apenas usar a verba recebida dos contribuintes, devem é usá-la bem. Com a política atual as agências pagam com muitas bolsas a mesma pesquisa. Isso não é necessariamente ruim se os assessores tivessem clara a participação de cada autor de um artigo. Mas, ser co-autor de vários artigos não deveria ser suficiente para a concessão de bolsas.

Se essa atitude não for transmitida aos nossos estudantes, vamos acabar matando a pesquisa científica no país, afogada no grande número artigos e citações, mas sem conteúdo. Como assinalado pelo Prof. Faria, o produto principal do exercício científico no país é a formação de pesquisadores e docentes universitários qualificados. Apenas a publicação de artigos em revista de qualquer qualis não garante essa formação. Os órgãos de fomento à pesquisa têm a obrigação de passar essa mensagem.

O sistema atual que não faz distinção entre trabalhos assinados por 1, 10 e 50 ou mais autores é insustentável.

A avaliação dos projetos seria mais objetiva, como proposto pelo Prof. Matsas, se fossem julgados pelos pares da mesma área. São eles e elas que assistem aos seminários dos pesquisadores, discutem e trocam idéias com eles, etc. É por isso que são os pares que têm uma visão melhor da qualidade da pesquisa de um pesquisador ou de um grupo de pesquisa. Isso não elimina completamente a subjetividade das avaliações mas será, sem dúvida, um avanço.

Cordialmente

Vicente Pleitez