Sociedade Brasileira de Física 

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Boletim [004/2010]

Qualidade x Quantidade (Alberto Saa)


Gostaria de elaborar um pouco mais sobre o ponto levantado pelo Prof. Faria, de que a qualidade do doutor formado no País estaria em declínio.
Confesso que este tipo de afirmação, de que o "nível" no passado era melhor que o "nível" atual, seja da educação fundamental, secundária, musical, esportiva, etc., sempre me intriga. Quase sempre, essas afirmações aparecem sem nenhum dado de base factual. Quase sempre, essas afirmações não resistem a uma análise mais detalhada. Parecem mais conclusões tiradas a partir de comparações, um tanto saudosistas, entre o mundo "que eu me lembro" e o mundo "que eu percebo", quase sempre muito inferior ao mundo "que poderia ser", este último tão idealizado quanto o mundo "que eu me lembro". Estou na Academia há 25 anos. Estou convencido que, neste período de tempo, o nivel dos físicos e da Física no Brasil tem melhorado ano a ano, talvez num ritmo mais lento do que esperamos (e do que gostaríamos), mas tem inequivocamente melhorado. A minha formação de graduação foi melhor que a formação que meu orientador recebeu (na mesma Universidade). A formação de meus alunos é melhor que a formação que eu recebi, o que, para mim, constitui motivo de verdadeiro orgulho. Há várias maneiras de se verificar estas afirmações.
Por exemplo, a inserção internacional de um estudante de Doutorado em Física hoje é muito maior do que na minha época. Notem que meu orientador nem pode fazer seu doutorado no País. Uma boa tese de doutorado hoje em dia gera mais e melhores artigos do que uma boa tese de doutorado da minha época, e assim por diante.

Porém, não há como discordar da conclusão do Prof. Faria de que há um tremendo descompasso entre a quantidade e a qualidade dos doutores formados. Aumentamos muito a quantidade e, muito provavelmente, nem tanto a qualidade, levando, sem dúvida nenhuma, a uma deterioração do "nível médio", seja lá o que isso for. Uma evidência direta deste fato já foi discutida aqui: o péssimo desempenho de nossos jovens doutores nos diversos concursos que tivemos nos últimos tempos. Também concordo (e endosso completamente) o dignóstico levantado pelo Prof. Matsas sobre as avaliações de mérito do CNPq. Não é esse o ponto, porém, que quero destacar. Como o Prof. Faria, quero focar a nossa Pós-Graduação, a matriz dos nossos doutores. Não há cursos de Pós em Física no País que não tenham experimentado um aumento de seus alunos. O número de doutores formados tem também aumentado, provavelmente de forma proporcional.
Porém, há um fenômeno DOCUMENTADO que pude verificar em todas as pós-graduações com as quais já me envolvi, com uma notável exceção, como veremos. As notas médias obtidas pelos alunos na Pós-Graduação tem aumentado! Em alguns casos, não tirar "A" é quase motivo de humilhação.
Também não há mais registros de reprovações em exames de qualificação!
Há até um fenômeno comentado a boca pequena nas cantinas universitárias paulistas: o aluno que, na graduação tinha média 7, mas que na pós passa a ter média "A"! Não faltam explicações prosaicas para este fenômeno, mas elas não vem agora ao caso. Seriam estas melhorias uma evidência suportando a argumentação do meu primeiro parágrafo? Não, infelizmente não. Não há mais reprovações em exames de qualificação porque, simplesmente, aboliram-se os exames escritos. Obtém-se "A" em uma disciplina típica simplesmente entregando-se listas de exercício. Na minha opinião, criou-se na Pós-Graduação em Física um ambiente paternalista que fomenta uma relação burocrática com a Ciência e o aprendizado. É claro que alguém oriundo deste sistema terá grandes dificuldades com "Física Básica". Irá, provavelmente, "esquecê-la" em favor do ultimo algoritmo ACME necessário para fazer seu PRL.
Infelizmente, com este sistema, é muito provavél que ele nunca tenha efetivamente aprendido "Física Básica".

Como saímos deste impasse? Será que o aumento da quantidade está inexoravelmente atrelado a uma queda da qualidade? Obviamente, não tenho nenhuma resposta definitiva, mas tenho uma pista. Trata-se da Pós-Graduação em Matemática do IMECC/UNICAMP (da qual não sou participante pleno!), a exceção que disse acima. Tudo indica que o número de alunos lá tem aumentado sem NENHUM prejuízo de qualidade. Em particular, há (duríssimos) exames de qualificação escritos (os quais, tipicamente, reprovam 50% dos alunos), e pode-se tirar "B" normalmente, sem nenhum motivo para vergonha. De fato, o conceito "B" é BOM.
Reserva-se o "A" apenas para os "EXCELENTES". É evidente que os pós-graduandos em Matemática se dedicam MUITO mais à sua fase de formação que os pós-graduandos em Física, pelo menos aqui na UNICAMP. Na Matemática, o nível de exigência das matérias de Pós é muito maior que o da graduação, como de fato deve ser e é na maior parte das boas Universidades do mundo. Curiosamente, na Física, como se infere do fenômeno discutido nas cantinas, estamos adotando o contrário! Como já disse, estou convencido que esta nova geração é a melhor que este País já teve. Podemos exigir MUITO MAIS deles. Talvez, assim, comecemos o lento trabalho de melhoria de qualidade que tanto precisamos. Deve-se notar, também, que não há como separar esta questão da discussão sobre a avaliação de mérito dos pesquisadores realizada pelo CNPq. De fato, os critérios usados pelo CNPq acabam condicionando toda a cadeia científica, desde os líderes de pesquisa até os mais jovens estudantes de Iniciação Científica. De certa forma, os critérios do CNPq também são responsáveis pelos nossos resultados atuais, tanto os bons quanto os maus!

Alberto Saa
UNICAMP