Gostaria de elaborar um pouco mais sobre o ponto
levantado pelo Prof. Faria,
de que a qualidade do doutor formado no País estaria
em declínio.
Confesso que este tipo de afirmação, de que o
"nível" no passado era melhor que o "nível"
atual, seja da educação fundamental, secundária,
musical, esportiva, etc., sempre me intriga. Quase sempre, essas
afirmações aparecem sem nenhum dado de base factual.
Quase sempre, essas afirmações não resistem
a uma análise mais detalhada. Parecem mais conclusões
tiradas a partir de comparações, um tanto saudosistas,
entre o mundo "que eu me lembro" e o mundo "que
eu percebo", quase sempre muito inferior ao mundo "que
poderia ser", este último tão idealizado
quanto o mundo "que eu me lembro". Estou na Academia
há 25 anos. Estou convencido que, neste período
de tempo, o nivel dos físicos e da Física no Brasil
tem melhorado ano a ano, talvez num ritmo mais lento do que
esperamos (e do que gostaríamos), mas tem inequivocamente
melhorado. A minha formação de graduação
foi melhor que a formação que meu orientador recebeu
(na mesma Universidade). A formação de meus alunos
é melhor que a formação que eu recebi,
o que, para mim, constitui motivo de verdadeiro orgulho. Há
várias maneiras de se verificar estas afirmações.
Por exemplo, a inserção internacional de um estudante
de Doutorado em Física hoje é muito maior do que
na minha época. Notem que meu orientador nem pode fazer
seu doutorado no País. Uma boa tese de doutorado hoje
em dia gera mais e melhores artigos do que uma boa tese de doutorado
da minha época, e assim por diante.
Porém, não há como discordar
da conclusão do Prof. Faria de que há um tremendo
descompasso entre a quantidade e a qualidade dos doutores formados.
Aumentamos muito a quantidade e, muito provavelmente, nem tanto
a qualidade, levando, sem dúvida nenhuma, a uma deterioração
do "nível médio", seja lá o que
isso for. Uma evidência direta deste fato já foi
discutida aqui: o péssimo desempenho de nossos jovens
doutores nos diversos concursos que tivemos nos últimos
tempos. Também concordo (e endosso completamente) o dignóstico
levantado pelo Prof. Matsas sobre as avaliações
de mérito do CNPq. Não é esse o ponto,
porém, que quero destacar. Como o Prof. Faria, quero
focar a nossa Pós-Graduação, a matriz dos
nossos doutores. Não há cursos de Pós em
Física no País que não tenham experimentado
um aumento de seus alunos. O número de doutores formados
tem também aumentado, provavelmente de forma proporcional.
Porém, há um fenômeno DOCUMENTADO que pude
verificar em todas as pós-graduações com
as quais já me envolvi, com uma notável exceção,
como veremos. As notas médias obtidas pelos alunos na
Pós-Graduação tem aumentado! Em alguns
casos, não tirar "A" é quase motivo
de humilhação.
Também não há mais registros de reprovações
em exames de qualificação!
Há até um fenômeno comentado a boca pequena
nas cantinas universitárias paulistas: o aluno que, na
graduação tinha média 7, mas que na pós
passa a ter média "A"! Não faltam explicações
prosaicas para este fenômeno, mas elas não vem
agora ao caso. Seriam estas melhorias uma evidência suportando
a argumentação do meu primeiro parágrafo?
Não, infelizmente não. Não há mais
reprovações em exames de qualificação
porque, simplesmente, aboliram-se os exames escritos. Obtém-se
"A" em uma disciplina típica simplesmente entregando-se
listas de exercício. Na minha opinião, criou-se
na Pós-Graduação em Física um ambiente
paternalista que fomenta uma relação burocrática
com a Ciência e o aprendizado. É claro que alguém
oriundo deste sistema terá grandes dificuldades com "Física
Básica". Irá, provavelmente, "esquecê-la"
em favor do ultimo algoritmo ACME necessário para fazer
seu PRL.
Infelizmente, com este sistema, é muito provavél
que ele nunca tenha efetivamente aprendido "Física
Básica".
Como saímos deste impasse? Será
que o aumento da quantidade está inexoravelmente atrelado
a uma queda da qualidade? Obviamente, não tenho nenhuma
resposta definitiva, mas tenho uma pista. Trata-se da Pós-Graduação
em Matemática do IMECC/UNICAMP (da qual não sou
participante pleno!), a exceção que disse acima.
Tudo indica que o número de alunos lá tem aumentado
sem NENHUM prejuízo de qualidade. Em particular, há
(duríssimos) exames de qualificação escritos
(os quais, tipicamente, reprovam 50% dos alunos), e pode-se
tirar "B" normalmente, sem nenhum motivo para vergonha.
De fato, o conceito "B" é BOM.
Reserva-se o "A" apenas para os "EXCELENTES".
É evidente que os pós-graduandos em Matemática
se dedicam MUITO mais à sua fase de formação
que os pós-graduandos em Física, pelo menos aqui
na UNICAMP. Na Matemática, o nível de exigência
das matérias de Pós é muito maior que o
da graduação, como de fato deve ser e é
na maior parte das boas Universidades do mundo. Curiosamente,
na Física, como se infere do fenômeno discutido
nas cantinas, estamos adotando o contrário! Como já
disse, estou convencido que esta nova geração
é a melhor que este País já teve. Podemos
exigir MUITO MAIS deles. Talvez, assim, comecemos o lento trabalho
de melhoria de qualidade que tanto precisamos. Deve-se notar,
também, que não há como separar esta questão
da discussão sobre a avaliação de mérito
dos pesquisadores realizada pelo CNPq. De fato, os critérios
usados pelo CNPq acabam condicionando toda a cadeia científica,
desde os líderes de pesquisa até os mais jovens
estudantes de Iniciação Científica. De
certa forma, os critérios do CNPq também são
responsáveis pelos nossos resultados atuais, tanto os
bons quanto os maus!
Alberto Saa
UNICAMP