Sociedade Brasileira de Física 

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Boletim [001/2010]

Bibliometria e a formação de pesquisadores (Roberto Mendonça Faria)


Recentemente, dois artigos sobre avaliação da produção científica de pesquisadores foram publicados neste boletim eletrônico, e chamaram a atenção pela relevância e atualidade do tema. O primeiro, o do prof. George Matsas, aponta com pertinência falhas no sistema de avaliação das Bolsas de Produtividade do CNPq, e, ao mesmo tempo, apresenta uma sugestão inteligente para o seu aperfeiçoamento (www.sbf1.sbfisica.org.br/boletim1/msg189.htm e www.sbf1.sbfisica.org.br/boletim1/msg194.htm). Sua preocupação está no fato de que, a prosseguir com a avaliação predominantemente quantitativa, o sistema acaba por inibir a ousadia e a criatividade científica, ou seja, como ele próprio destacou “faça mais do mesmo e renove sua bolsa”. O segundo, a versão do artigo “L’évaluation bibliométrique des chercheurs: même pas juste… même pas fausse!” (www.sbf1.sbfisica.org.br/boletim1/arquivos/laloe.pdf), publicado na revista Reflets de la Physique, e feita por quatro colegas brasileiros (enviada à SBF pelo prof. Paulo Murilo C. de Oliveira). Queria aproveitar essas duas contribuições para estender o tema, ou seja, fomentar uma discussão sobre a relação entre a produção científica e a pós-graduação. Isto por dois motivos. O primeiro porque a produção científica brasileira está quase que totalmente sendo gerada dentro da universidade, e o segundo, porque o produto mais importante do exercício científico hoje no Brasil é o da formação de novos pesquisadores e docentes universitários. O segundo motivo nos força a considerar também o Sistema de Avaliação da Pós-graduação da CAPES. Esse sistema parece sofrer do mesmo mal, ou seja, não estimula a inovação científica e força uma estatística numérica que pode em muitos casos prejudicar a boa formação dos pós-graduandos.
Ao mesmo tempo são cada vez mais freqüentes discussões e comentários sobre o “despreparo dos candidatos em concursos”. A verdade inconteste é que um número expressivo desses candidatos “pesam” bem menos que seus currículos. O que tem ocorrido com freqüência é no mínimo intrigante: notas altas nos exames de memorial e baixas nos exames escrito, de didática, e de projeto. Não há como negar que algo está errado. A origem dessa disparidade está deslocalizada por todo o sistema, ou seja, não só dentro dos órgãos de fomento, como comumente se acusa, mas também, dentro das universidades e de seus programas de pós-gradação. Esta é uma questão complexa de ser resolvida, e exige muita discussão e reflexão dentro da comunidade envolvida. O Brasil, por outro lado, vive um momento de euforia devido ao crescimento do número de papers aqui produzido e o do número de doutores formados: números cada vez mais crescentes. Parece haver uma relação biunívoca entre esses dois índices. Por outro lado, alguns exercícios mostram que o impacto médio dos trabalhos científicos aqui produzidos parece caminhar no sentido oposto, isto é, decrescente. Aceitando a relação biunívoca, a conclusão é que a qualidade do doutor formado também está em declínio. Se essa é a realidade, ela tem que mudar, e rapidamente. Se essa é a realidade, precisamos (re)eleger a qualidade como prioritária. Um país precisa de números para o seu desenvolvimento, mas números com qualidade. A solução desse problema, acredito, só sairá do seio da comunidade. Proponho que os encontros da SBF abordem esse problema através de palestras, mesas redondas e debates. A continuar o atual status quo de “jogar com as regras na mão”, tipo “publish or perish”, nós, pesquisadores e docentes universitários, não estaremos cumprindo efetivamente nossa missão, e pouco estaremos contribuindo ao desenvolvimento e à cultura da sociedade brasileira.

Roberto Mendonça Faria