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Boletim [039/2009]

SOBRE OS CRITÉRIOS DO CA-FISICA/CNPq (George E. A. Matsas (ex-membro do CA) Instituto de Física Teórica/UNESP)


Sociedade Brasileira de Física

Caros colegas,

É a primeira vez que me dirijo à comunidade por meio deste boletim e o faço agora, como ex-membro do CA, para expor minha opinião sobre os critérios de concessão de bolsas de produtividade (PQ) do CNPq. Não há dúvida sobre a importância que as bolsas PQ tiveram no desenvolvimento da pesquisa nacional até hoje. Contudo, no atual estágio, creio que se os critérios de avaliação não forem aperfeiçoados, as bolsas PQ acabarão inibindo o salto de qualidade da produção científica, ao menos em algumas áreas da física.

Como já oficialmente divulgado, para concessão da bolsa PQ “tem sido exigida uma média anual de dois trabalhos qualis alfa ou beta”. Apesar de ser também dito que esta “não é uma regra fixa havendo situações em que a qualidade da revista, número de autores, e o tipo de trabalho são considerados relevantes”, na prática sobra pouco tempo para se levar em conta aspectos qualitativos na semana na qual o CA se reúne para decidir sobre as bolsas PQ.
Isso poderia ser parcialmente resolvido, se durante a reunião anual os membros do CA não perdessem a maior parte do tempo ouvindo relatos sobre solicitantes a respeito dos quais nada (ou quase nada) tem a dizer (a menos de opiniões baseadas em aspectos numéricos), já que a concessão de cada bolsa PQ consome a atenção de todo o CA. Se dividirmos as áreas em 6 principais nos moldes da Phys. Rev. A-E + astronomia, podemos estimar que a expertise de cada membro do CA é desperdiçada 5/6 do tempo. No final, a conseqüência disso é a que todos já sabem: físicos inseridos em grupos maiores e fazendo trabalho de rotina são beneficiados em relação àqueles que trabalham com poucos colaboradores e se arriscam em problemas mais audaciosos. Essa política pode ser eficiente para aumentar a massa de artigos, mas não para fomentar resultados seminais.
Uma forma de resolver/minimizar esse problema é que no início da reunião, o CA (já formado de 13 membros titulares e 7 suplentes) se divida em 6 grupos de trabalho (correspondentes às áreas cobertas pelas Phys. Rev. A-E + astronomia) e que sejam atribuídos a cada grupo apenas os processos de sua expertise para efeito de classificação. As bolsas seriam então concedidas proporcionalmente ao número de pesquisadores do CNPq já presentes em cada uma das sub-áreas. Possíveis remanejamentos seriam feitos numa segunda rodada. Isso melhoraria a qualidade do julgamento de um fator 6 permitindo aos assessores analisarem aspectos qualitativos segundo a tradição de sua comunidade específica, cujo modus operandi pode ser tão diverso quanto física experimental de materiais e teoria axiomática de campos. Além disso, uma análise mais cuidadosa do trabalho de pesquisa permitiria identificar más práticas científicas, tais como adição de co-autores espúrios, publicação de artigos com pouco conteúdo original, etc, cuja não detecção prejudica cientistas sérios.
Finalmente, gostaria de me antecipar aos que argumentarão que tal forma de conduta não levaria a nenhuma redistribuição radical de bolsas PQ. Eu não só concordo com essa análise, mas também vejo nisso uma virtude. Para não colocarmos em risco as conquistas já alcançadas, as mudanças devem ser suaves. O fundamental dessa nova conduta reside na mensagem que ela carrega: o bom trabalho de rotina é importante e será recompensado, mas não pode ser nosso objetivo final.

Nosso objetivo final deve ser o de estimularmos a geração de resultados seminais; os únicos que sobreviverão ao tempo. Para tanto, precisamos fazer melhor (mesmo que menos). Eu não vejo onde esta mensagem está codificada quando degeneramos Science, Nature, Phys. Rev. Lett., etc com outras 50 revistas que denominamos a todas qualis alfa. A mensagem que os atuais critérios passam é o de “faça mais do mesmo e renove sua bolsa”. Esse “mesmo” não é tão mal, mas acredito que podemos fazer bastante melhor com os mesmos recursos materiais e humanos se os números não forem usados como carro chefe de uma política científica que (i) é injusta ao usar os mesmos critérios em sub-áreas com distintos modus operandi, (ii) ineficiente para punir más práticas científicas e (iii) pouco sensível à solidez e excelência.

Cordialmente,

George Matsas


SOBRE OS CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO DOS FÍSICOS

A discussão que o colega Matsas colocou recentemente cai como uma luva nos aspectos gerais da avaliação nessa e outras agências de fomento referente a projetos de pesquisa em geral. Afirmo por experiência própria que ha árbitros que avaliam pela quantidade de publicações sem olhar no conteúdo da pesquisa e particularmente nos trabalhos que, por anos, ficam em discussão com revistas. Para isso não seria preciso um árbitro, o formulário poderia automaticamente fazer a avaliação!
Outra parte a destacar, é a que diz que vale igual um trabalho realizado com mais seis autores que um com um ou dois. Isso é multiplicar os paes, como Jesuscristo!
Dessa maneira, o cientista isolado vale menos que aquele que compartilha seu trabalho com outros. Não ha dúvida que compartilhar é bom, mas se for para acrescentar força de trabalho e opiniões.

José J. Lunazzi - Instituto de Física - UNICAMP