Sociedade Brasileira de Física 

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  Boletim [016/2005]
  Livro da Unesco (por Alaor Chaves)

 

Prezado senhor

Jorge Werthein
Representante da Unesco no Brasil

Gostaria de parabenizar a Unesco, e em especial o senhor, pela iniciativa de organizar e publicar o livro Investimentos em Educaçao, Ciência e Tecnologia: O que pensam os jornalistas (Unesco, Novembro de 2004). Há excelentes artigos no livro, que muito contribuirao para que os governos passem a tratar com maior prioridade a educaçao do nosso povo. Entretanto, foi lamentável ler o artigo As duas verdades do Brasil, de Miriam Leitao. Parte do artigo, usa-o a autora para dizer do seu sensível coraçao, que sofre ao ver as desigualdades brasileiras, e para cantar loas à "brilhante trajetória" do seu pai, "que o levou a ser um desbravador do ensino [...] a ajudar o governo estadual a semear escolas pelo interior bravio de Minas". Sobre si mesma, a autora diz: "A minha fé na educaçao é talvez a verdade mais profunda que trago no coraçao". No mesmo artigo, entretanto, ela diz: "Nao há desculpa que nos inocente de termos criado um sistema educacional em que o governo Federal gasta R$ 8 bilhoes por ano com o ensino universitário da classe média e dos ricos, de ter implantado políticas públicas que transferem mais recursos do Estado para os nao-pobres do que para os verdadeiros despossuídos".

Antes de comentar essa sentença, cujo bom final nao é capaz de neutralizar o efeito do desastrado começo, julgo pertinente informar que a família Leitao atua no lucrativo negócio do ensino privado. Começou com colégios, e hoje busca fazer fortuna fornecendo ensino superior no interior bravio de Minas. Neste momento em que o Ministério da Educaçao se esforça para fazer a Reforma do Ensino Superior, muitas instituiçoes privadas de ensino superior se organizaram num poderoso lobby para lutar contra a valorizaçao da educaçao superior pública. A senhora Miriam corre o risco de que alguém tome o seu lamento sobre os R$ 8 bilhoes gastos com o ensino universitário como apoio a esse lobby.

Vamos ao conteúdo da sentença e aos R$ 8 bilhoes alegadamente gastos com ensino superior. Uma parte significativa do dinheiro destinado às universidades, ninguém deveria ignorar, vai para os hospitais universitários, que estao entre os melhores do País e que prestam serviço direto a toda a populaçao. Sobre a atividade da universidade pública, é preciso reconhecer o quanto ela é diversificada. A universidade realiza atividade de ensino, pesquisa e extensao, esta última destinada a toda a populaçao. Um professor em regime de tempo integral e dedicaçao exclusiva (a grande maioria está nesse regime de trabalho) dá em média 8 horas-aula por semana, e o restante do seu tempo é dedicado à pesquisa e à extensao. Tem também a labirintosa burocracia, que nao sei em que proporçao distribuir nas três atividades-fim. Mas, em resumo, apenas cerca da metade do que é gasto em uma universidade também engajada na pesquisa é destinada ao ensino; essa fraçao declina na proporçao em que a pesquisa cresce em qualidade e intensidade. Assim, dos R$ 8 bilhoes iniciais, já estamos em apenas quatro, grosso modo.

Como apontado em mais de um artigo do livro Investimentos em Educaçao, Ciência e Tecnologia, essencialmente toda a pesquisa científica realizada no Brasil é desenvolvida nas universidades públicas e institutos de pesquisa também estatais. Quanto vale essa pesquisa? Infelizmente, a senhora Miriam pertence a uma ultrapassada classe de economistas que ignora ser o conhecimento o mais valioso bem da atualidade. É uma admiradora do ex-ministro Malan, autor da célebre pérola: "Tecnologia é coisa que se compra". Como o ministro, a senhora Miriam ignora que apenas tecnologias ultrapassadas, já nao utilizadas pelo seu autor, estao disponíveis para compra - as exceçoes sao realmente incomuns, exceto em operaçoes envolvendo trocas de tecnologias complementares.

Confesso que eu também nao sei dizer quanto vale o conhecimento gerado pelas nossas universidades. Infelizmente, como muito bem descreve o artigo Brasil, mostre a sua cara, de Gilberto Nascimento, também contido no livro da Unesco, no Brasil dispomos de poucos dados estatísticos sobre os quais se possam fazer reflexoes bem fundadas. Sem os dados, arrisco-me na conjetura. Tomemos um único fato, decorrente do conhecimento gerado em nossas universidades e na Embrapa, empresa estatal de pesquisa em agricultura e pecuária, que atua em estreita colaboraçao com nossas melhores escolas de agricultura, todas elas públicas. Nas últimas duas décadas, o Brasil deixou de importar tecnologia agrícola e começou a desenvolver a sua própria técnica, adequada ao seu clima tropical e ao seu solo. Nossa tecnologia agrícola e pecuária é hoje a que avança com maior rapidez em todo o mundo. Até duas décadas atrás, o Brasil estava estacionado na produçao de 50 milhoes de toneladas de graos por ano. Em 2005 vamos colher 120 milhoes de toneladas, com tecnologias inovadoras, que economizam energia e preservam o solo. E esse aumento se deu num período em que os subsídios estatais ao setor agrícola foram drasticamente reduzidos. Quase todo o nosso enorme superávit na balança comercial vem de produtos agrícolas. Nossa produtividade de graos (toneladas por hectare) cresce cerca de 6% ao ano, fato nunca visto na história, e que assombra todo o mundo bem informado. Crescer 6% ao ano significa duplicar em um tempo de doze anos. Mantido a atual crescimento da nossa agricultura, em uns quinze anos o Brasil será a maior potência agrícola do planeta.

Quanto vale isso para o nosso povo? Nao sei dizer. Mas especulo que a receita tributária auferida anualmente pelo Estado sobre a produçao adicional decorrente do ganho na produtividade agrícola já supere em muito os lamentados R$ 8 bilhoes que o Governo Federal destina às universidades, mais os R$ 900 milhoes destinados à Embrapa. Porém, pela lógica de alguns, se os cientistas que desenvolvem as mencionadas pesquisas foram privilegiados que receberam ensino superior gratuito, nao há desculpa que inocente tal pecado. Por tal equívoco, há o risco de que o governo Lula crie um imposto extra para pessoas que tiveram ensino universitário gratuito, o que nos porá com destaque na história universal da bizarria. Os países centrais aplaudirao, pois isso causará uma evasao adicional dos nossos cérebros; exatamente para lá.

É muito importante desfazer a equivocada dicotomia ensino básico versus ensino superior, que tem obscurecido a discussao relativa à educaçao no Brasil. Eles sao igualmente importantes e indispensáveis, e na verdade um nao vive sem o outro. Sem um bom sistema universitário nao é possível ter bom ensino básico, e sem este último nao teremos bons candidatos à educaçao superior. Nosso sistema de ensino público superior, assim como o fundamental e o médio, precisa ser generosamente ampliado, pois todos, ricos e pobres, muito ganharao com isso. No momento, o Brasil tem perto de 4 milhoes de estudantes em escolas superiores, e apenas 1,1 milhoes estao em escolas públicas. Isso é dramático. Nos EUA, país que alguns crêem praticar muito intensamente o ensino superior privado, três quartos dos estudantes de terceiro grau estao em escolas públicas. Quanto às escolas de elite, para ricos, ninguém vá imaginar que sejam inteiramente custeadas pelas taxas escolares. O grosso do dinheiro que sustenta Harvard, MIT, Cornell, Princeton, Stanford, Caltech e tantas outras vem dos cofres públicos e doaçoes de pessoas e empresas. (Harvard tem um orçamento anual de US$ 2 bilhoes, 60% do que é destinado a todas as instituiçoes federais de ensino superior brasileiras! Apenas 23% desse dinheiro vêm de taxas escolares.) Sao escolas privadas, mas sem fins lucrativos e de caráter público, e por isso fazem jus ao vigoroso apoio financeiro do poder público americano. No Brasil, também temos algumas universidades privadas com espírito público - com destaque para as confessionais - que o Governo deveria apoiar financeiramente, pois taxas escolares sao incapazes de sustentar uma universidade que pratique bom ensino e boa pesquisa. O essencial nao é que a universidade seja estatal, mas que tenha caráter realmente público.

Quanto à discriminaçao sócio-econômica do acesso às nossas universidades públicas, ela é intensa e perversa, e precisa ser mitigada. Mas felizmente, como mostram recentes estudos (ver, p.ex., Equity, quality and relevance in higher education in Brazil, Simon Schwartzman, Anais da Academia Brasileira de Ciências 76 (1): 173 2004), é menos dramática do que se pensava. Os alunos das universidades públicas sao em maioria provenientes da classe média, e há também um considerável número de alunos de classes pobres, que fizeram os estudos básicos nas escolas públicas. É necessário ampliar largamente essa fraçao de alunos originários das classes mais pobres. A melhor maneira (e a única que gera outros benefícios para o País, além da justiça social) é o aprimoramento do ensino público fundamental e médio. Há um dado interessante salientado por uma pesquisa realizada pela Unicamp: Os alunos que estudaram em escolas públicas e que logram ingressar na Unicamp têm desempenho muito superior aos dos que vieram de escolas privadas e obtiveram notas equivalentes no exame vestibular. A explicaçao nao foi ainda dada, mas uma hipótese se apresenta de forma natural: para ser bem sucedido na competiçao seletiva, o estudante pobre precisa ser muito bem dotado e motivado. Diante do fato revelado pela sua pesquisa, a Unicamp decidiu dar um bônus de 30 pontos no vestibular (cerca de dez por cento do total) para os concorrentes que realizaram todos os seus estudos anteriores em escolas públicas. Com isso ela espera dar um passo na democratizaçao do seu ensino e ao mesmo tempo elevar o seu nível! Essa brilhante iniciativa merece ser imitada.

No momento, o País está despertando para a necessidade de educar o seu povo e dessa forma realmente entrar na era da inovaçao. A Reforma do Ensino Superior pretende ser um passo nessa direçao. Ela é necessária, e precisar ser acompanhada de uma Reforma do Ensino Básico. Vários agentes têm dificultado a formulaçao da reforma que o País merece e de que necessita. Há excesso de lobbies e pressoes, de várias origens e índoles. Das instituiçoes privadas, que nao querem que o Estado aumente sua participaçao na educaçao superior. Infelizmente, também de associaçoes como a UNE, Andes e Andifes, que embora bem intencionadas têm um conceito equivocado de democracia e pretendem que os dirigentes das universidades sejam selecionados por eleiçoes diretas e paritárias dos docentes, discentes e funcionários. Diante dessas forças, teremos nao a reforma ideal, mas a politicamente possível. O Ministro da Educaçao e seus assessores mais próximos sabem disso, e têm lutado pelo realizável. Alguns pontos da reforma sao altamente positivos, por exemplo, a criaçao do Ciclo de Formaçao Geral, que impede a especializaçao precoce e permite que o estudante faça sua opçao de carreira após completar pelo menos dois anos de estudo de espectro mais amplo e caráter conceitual e científico - e nao de caráter técnico. O CFG também contribuirá para democratizar o acesso a carreiras socialmente mais valorizadas, pois o aluno se candidata a uma grande área do conhecimento e, se tiver bom desempenho no CFG, acabará tendo acesso à carreira que preferir, dentro daquela grande área.

O momento é propício para que as forças progressistas se unam para defender os melhores itens da reforma em discussao e retirar os danosos, capazes de comprometer o resultado. Quanto à frase da Miriam, ela parece perfeita, mas com o acréscimo de apenas uma palavra, que na verdade a inverte: Nao há desculpa que nos inocente de termos criado um sistema educacional em que o governo Federal gasta apenas R$ 8 bilhoes por ano com o ensino universitário. Isso, mais R$ 2 bilhoes que Sao Paulo gasta em suas três universidades estaduais e uma quantia ainda bem menor gasta pela totalidade dos outros estados. No Brasil, 20% de todo dinheiro (público e privado) gasto em educaçao destina-se ao ensino superior; nos EUA esse percentual é de 40%. Portanto, se praticamos um desvio na divisao dos recursos, talvez seja na direçao oposta à apontada pela Miriam.



Alaor Chaves
alaor@fisica.ufmg.br


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