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Caro Professor Paulo Murilo Castro de Oliveira:
Espanta-me
que o Sr., enquanto editor do Boletim Electrónico da Sociedade
Brasileira de Física, considere sequer publicar a carta torpe que
contra a minha pessoa lhe enviou o Professor António Manuel Baptista
(AMB). Aceitei o amável convite da Sociedade Brasileira de Física para
um debate que, como teve ocasiao de verificar, pois que o moderou, nao
teve nada a ver com o que neste ataque é mencionado. Considero um acto
de descortesia impor-me a publicaçao de um texto deste teor.
A
esse documento inqualificável, cujo tom preconceituoso e achincalhante
ultraja tanto portugueses como brasileiros, nao darei resposta. Nao
entro em diálogo com quem há muito deixou de dignificar o saber, o da
física ou o de qualquer outra ciência, para se rever tristemente famoso
nos ataques soezes que me dirige e a todos quantos defendem ideias
diferentes das suas. Dialogo, sim, com cientistas probos, como Alan
Sokal, a quem, na sequência do debate tao desvirtuadamente mencionado
por AMB na carta que endereçou ao Sr., visitei no seu departamento em
NYU. As nossas muitas divergências epistemológicas nao impediram que
tivéssemos um diálogo cordial e que identificássemos algumas
convergências, nomeadamente no que respeita à crescente mercantilizaçao
da ciência, que a ambos preocupa.
Se, contudo, o Sr. já decidiu
publicar essa flagrante manifestaçao de desleixo intelectual e
improbidade científica, solicitar-lhe-ei que publique também a carta
que ora lhe dirijo.
AMB, há muito aposentado, foi professor de
Física Experimental e, nas décadas de 1960 e 1970, ficou conhecido em
Portugal como divulgador da ciência. Há mais de 30 anos, porém, que nao
se lhe conhece qualquer produçao científica de vulto. Talvez por isso,
em 2005, AMB sinta necessidade de se apresentar à Sociedade Brasileira
de Física. Nao é este o meu caso no que respeita à comunidade dos
cientistas sociais brasileiros, onde o meu trabalho é sobejamente
conhecido. E já que AMB fala de prémios, talvez valha a pena mencionar,
especialmente para o público brasileiro, dois por ele omitidos: Prémio
Jabuti de Ciências Sociais e Humanas (2001); Prémio Euclides da Cunha
da Uniao Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (2004). Em
2002, no ocaso da vida e da carreira, AMB descobriu um livro meu, sobre
questoes epistemológicas, datado já de 1987 e intitulado Um discurso
sobre as ciências. Trata-se, nao de um ataque à ciência, como pretende
AMB, mas de uma reflexao crítica sobre as concepçoes dominantes de
ciência. Esta obra problematizadora vai já na 13ª ediçao em Portugal,
está disponível no Brasil desde 2003 (já em segunda ediçao) e está
traduzida em várias línguas. O impacto continuado deste livro incomoda
tanto AMB que ele nao resiste à tentaçao de vilipendiá-lo, e com tal
virulência, que até críticos que estao próximos das suas concepçoes
científicas consideram que ele presta um mau serviço à ciência. A
verdade é que a metodologia e o tom dos livros em que AMB me insulta
sao os mesmos da carta que endereçou ao Sr.: relatos falseados,
descriçoes omissas, citaçoes descontextualizadas, recurso a obras mal
citadas e mal referenciadas, tudo encadeado de graçolas injuriosas e em
redacçao atamancada, revisao apressada, ortografia deficiente e grande
profusao de pontos de exclamaçao.
Ao nível a que se coloca,
AMB nao merece qualquer resposta. Ao contrário, as questoes que se
levantaram no último episódio da chamada "guerra das ciências" sao
importantes e devem ser discutidas. Por isso reuni em livro textos de
cientistas de vários países, com quem ao longo dos últimos trinta anos
tenho vindo a dialogar sobre questoes epistemológicas, entre eles cinco
brasileiros, dois deles físicos (Samuel McDowell e Olival Freire, Jr.).
O livro intitula-se Conhecimento prudente para uma vida decente e está
disponível no Brasil (Sao Paulo, Editora Cortez, 2004), estando para
breve uma ediçao em língua inglesa (E.U.A.).
Nao é fácil
decidir se o que move AMB nesta verdadeira cruzada pseudo-científica é
falta de discernimento ou de informaçao actualizada - ou má fé. Talvez
uma mistura de tudo.
Com os meus melhores cumprimentos,
Boaventura de Sousa Santos
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