Sociedade Brasileira de Física 

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  Boletim [012/2005]
  Manifestaçao a respeito de convidado do XVI SNEF 'RESPOSTA' (por Boaventura de Sousa Santos)

 

Caro Professor Paulo Murilo Castro de Oliveira:

Espanta-me que o Sr., enquanto editor do Boletim Electrónico da Sociedade Brasileira de Física, considere sequer publicar a carta torpe que contra a minha pessoa lhe enviou o Professor António Manuel Baptista (AMB). Aceitei o amável convite da Sociedade Brasileira de Física para um debate que, como teve ocasiao de verificar, pois que o moderou, nao teve nada a ver com o que neste ataque é mencionado. Considero um acto de descortesia impor-me a publicaçao de um texto deste teor.

A esse documento inqualificável, cujo tom preconceituoso e achincalhante ultraja tanto portugueses como brasileiros, nao darei resposta. Nao entro em diálogo com quem há muito deixou de dignificar o saber, o da física ou o de qualquer outra ciência, para se rever tristemente famoso nos ataques soezes que me dirige e a todos quantos defendem ideias diferentes das suas. Dialogo, sim, com cientistas probos, como Alan Sokal, a quem, na sequência do debate tao desvirtuadamente mencionado por AMB na carta que endereçou ao Sr., visitei no seu departamento em NYU. As nossas muitas divergências epistemológicas nao impediram que tivéssemos um diálogo cordial e que identificássemos algumas convergências, nomeadamente no que respeita à crescente mercantilizaçao da ciência, que a ambos preocupa.

Se, contudo, o Sr. já decidiu publicar essa flagrante manifestaçao de desleixo intelectual e improbidade científica, solicitar-lhe-ei que publique também a carta que ora lhe dirijo.

AMB, há muito aposentado, foi professor de Física Experimental e, nas décadas de 1960 e 1970, ficou conhecido em Portugal como divulgador da ciência. Há mais de 30 anos, porém, que nao se lhe conhece qualquer produçao científica de vulto. Talvez por isso, em 2005, AMB sinta necessidade de se apresentar à Sociedade Brasileira de Física. Nao é este o meu caso no que respeita à comunidade dos cientistas sociais brasileiros, onde o meu trabalho é sobejamente conhecido. E já que AMB fala de prémios, talvez valha a pena mencionar, especialmente para o público brasileiro, dois por ele omitidos: Prémio Jabuti de Ciências Sociais e Humanas (2001); Prémio Euclides da Cunha da Uniao Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro (2004).

Em 2002, no ocaso da vida e da carreira, AMB descobriu um livro meu, sobre questoes epistemológicas, datado já de 1987 e intitulado Um discurso sobre as ciências. Trata-se, nao de um ataque à ciência, como pretende AMB, mas de uma reflexao crítica sobre as concepçoes dominantes de ciência. Esta obra problematizadora vai já na 13ª ediçao em Portugal, está disponível no Brasil desde 2003 (já em segunda ediçao) e está traduzida em várias línguas. O impacto continuado deste livro incomoda tanto AMB que ele nao resiste à tentaçao de vilipendiá-lo, e com tal virulência, que até críticos que estao próximos das suas concepçoes científicas consideram que ele presta um mau serviço à ciência. A verdade é que a metodologia e o tom dos livros em que AMB me insulta sao os mesmos da carta que endereçou ao Sr.: relatos falseados, descriçoes omissas, citaçoes descontextualizadas, recurso a obras mal citadas e mal referenciadas, tudo encadeado de graçolas injuriosas e em redacçao atamancada, revisao apressada, ortografia deficiente e grande profusao de pontos de exclamaçao.

Ao nível a que se coloca, AMB nao merece qualquer resposta. Ao contrário, as questoes que se levantaram no último episódio da chamada "guerra das ciências" sao importantes e devem ser discutidas. Por isso reuni em livro textos de cientistas de vários países, com quem ao longo dos últimos trinta anos tenho vindo a dialogar sobre questoes epistemológicas, entre eles cinco brasileiros, dois deles físicos (Samuel McDowell e Olival Freire, Jr.). O livro intitula-se Conhecimento prudente para uma vida decente e está disponível no Brasil (Sao Paulo, Editora Cortez, 2004), estando para breve uma ediçao em língua inglesa (E.U.A.).

Nao é fácil decidir se o que move AMB nesta verdadeira cruzada pseudo-científica é falta de discernimento ou de informaçao actualizada - ou má fé. Talvez uma mistura de tudo.

Com os meus melhores cumprimentos,

Boaventura de Sousa Santos


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