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Comentário sobre Proposta do Prof. Rogério Cerqueira Leite para o Programa Nuclear Brasileiro
Em artigo publicado na Folha de Sao Paulo, em 23 de janeiro, e
reproduzido no Jornal da Ciência em 03 de fevereiro, o Prof. Rogério
Cerqueira Leite propoe que, ao invés de concluir o reator Angra III, o
Governo Federal deveria investir os recursos necessários para sua
conclusao no desenvolvimento de pequenos reatores a fissao, do tipo HTR
ou VHTR. A argumentaçao é baseada no princípio de que, ao investir
na energia nuclear, o Governo deveria priorizar novas tecnologias que
possam efetivamente contribuir para o desenvolvimento científico e
tecnológico do País. Dentre estas, ele destaca os reatores a fusao
nuclear controlada e os compactos a fissao, de baixa potência elétrica,
que utilizam resfriamento a gás (hélio). Quanto a Angra III, ele
considera "um projeto de meados da década de 70, uma tecnologia
obsoleta em um território em acelerada evoluçao". No entanto, embora o
princípio seja politicamente correto, a análise do problema é feita de
forma superficial, com prognósticos e conclusoes discutíveis e
apresentados sem nenhuma argumentaçao científica ou técnica.
Considerando o prestígio do Prof. Cerqueira Leite e sua posiçao
privilegiada como formador de opiniao, creio ser importante rebater
algumas dessas conclusoes, principalmente quanto ao cenário atual das
pesquisas em fusao nuclear controlada e em reatores avançados de fissao.
Analisando inicialmente a possibilidade de desenvolvimento de reatores
a fusao, o Prof. Cerqueira Leite, embora reconheça os grandes
benefícios para a humanidade que decorreriam do domínio dessa
tecnologia, mostra-se extremamente pessimista quanto à possibilidade de
sua viabilidade num futuro próximo. De fato, ele afirma que "os imensos
esforços em pesquisas no campo serviram apenas para demonstrar a imensa
dificuldade para resolver os problemas básicos da fusao controlada".
Assim, ele menciona que, já na década de 70, afirmou que "antes de 50
anos nao haveria um reator a fusao comercial" e que atualmente "os
(especialistas) mais sensatos aceitariam prognósticos para 100 anos
como mais prováveis". Esta afirmaçao demonstra uma certa
incompreensao quanto aos "problemas básicos" da fusao nuclear e
desconhecimento de resultados mais recentes, que justificam uma
perspectiva otimista quanto à construçao do primeiro protótipo de um
reator a fusao, o ITER (International Thermonuclear Energy Reactor). A
demonstraçao científica da viabilidade da fusao nuclear controlada para
produçao de energia está baseada no critério de Lawson [J.D. Lawson;
Nature 180, 780 (1957)]. Este critério é intuitivamente
bastante simples; para haver ganho de energia num reator de fusao
termonuclear, é necessário confinar um plasma suficientemente denso,
numa temperatura T acima da de igniçao (cerca de 70x106 K), por um tempo t
longo o bastante para que a energia produzida pelas reaçoes de fusao
seja suficiente para pelo menos equilibrar as perdas de energia do
plasma, por radiaçao e transporte. Fazendo algumas aproximaçoes, que
nao invalidam o argumento, e levando em conta a temperatura de igniçao,
este critério pode ser expresso como uma condiçao no valor mínimo do
produto de fusao, nTt, onde n é a densidade do plasma. Para nTt > 5x1021 m-3keVs, onde a temperatura T
está expressa em unidades de energia térmica (keV), o auto-aquecimento
do plasma por partículas alfa, produzidas pelas reaçoes de fusao, é
suficiente para equilibrar as perdas térmicas e nenhum aquecimento
extra é necessário para manter o processo de fusao. Nessas condiçoes, o
fator de amplificaçao de energia, Q, definido como Q = Pfus/Paquec, onde Pfus é a potência produzida pelas reaçoes de fusao e Paquec
a potência gasta no aquecimento do plasma, atinge um valor infinito. Já
a chamada viabilidade científica da fusao nuclear controlada ficaria
demonstrada quando Q = 1, que requer um valor para o produto de fusao cerca de 1x1021 m-3keVs. A pesquisa em fusao nuclear tem evoluído em dois esquemas distintos. No processo de confinamento inercial,
feixes intensos de íons ou laser sao utilizados para comprimir
pastilhas de deutério a altíssimas densidades, várias ordens de
grandeza acima da densidade dos sólidos usuais, priorizando a
maximizaçao da densidade no produto de fusao. Já no processo de confinamento magnético,
campos magnéticos sao utilizados para confinar plasmas de baixa
densidade a altíssimas temperaturas. Embora em ambos esquemas o
progresso tenha sido notável, as atividades no primeiro têm sido
motivadas principalmente por suas aplicaçoes militares, ou seja, como
um esquema importantíssimo na simulaçao de artefatos bélicos nucleares.
Isto faz com que os resultados obtidos sejam em grande parte
classificados e, portanto, nao serao discutidos neste comentário. Ao
contrário, as pesquisas em confinamento magnético de plasmas a altas
temperaturas têm sido motivadas somente pelo desenvolvimento de
reatores a fusao nuclear e aplicaçoes tecnológicas, constituindo um
paradigma na colaboraçao entre naçoes para o uso pacífico da energia
nuclear. Quando o Prof. Cerqueira Leite afirma que, contrariando
muitos otimistas, ele previu em meados da década de setenta que um
reator comercial nao estaria disponível em menos de cinqüenta anos,
induz o leitor a supor que isto é o que prometiam levianamente os
cientistas, subestimando as dificuldades da fusao nuclear controlada.
De fato, isto nunca foi colocado dessa forma pelos lideres da pesquisa
em fusao nuclear, pois tinham consciência de que o desenvolvimento de
um reator comercial dependia nao somente do progresso científico, mas
também de decisoes políticas. O otimismo do início da década de
setenta foi devido aos resultados espetaculares alcançados num
dispositivo de confinamento magnético inventado por cientistas
soviéticos, o tokamak. No tokamak T3, do Instituto Kurchatov, de
Moscou, foi demonstrado, em 1969, o confinamento magnético estável de
plasmas com densidades acima de 1019 elétrons/m3 e temperaturas acima de 107
K (1keV), pelo menos uma ordem de grandeza acima dos valores obtidos
para estes parâmetros em outros tipos de dispositivos investigados em
laboratórios do ocidente. Vários tokamaks foram entao construídos em
laboratórios americanos e europeus e os resultados neles obtidos, além
de confirmar os de cientistas soviéticos, permitiram prever que seria
possível averiguar a viabilidade científica da fusao nuclear controlada
em tokamaks com volume de plasma da ordem de 50m3, campo magnético acima de 3T e corrente de plasma acima de 2MA. Assim
foram projetados o TFTR, do Laboratório de Física de Plasmas da
Universidade de Princeton, Estados Unidos, e o JET, da Comunidade
Européia, em Abingdon, Inglaterra, que entraram em operaçao no início
da década de oitenta. Cerca de dez anos mais tarde, em ambos tokamaks
foi produzida energia por fusao termonuclear controlada, um grande
feito científico para a humanidade. Além disso, as descargas no JET
alcançaram as condiçoes correspondentes à viabilidade científica da
fusao, acima mencionada. Considerando que no tokamak T3 o produto de
fusao tinha um valor modesto, cerca de 2x1017 m-3keVs e no JET foi alcançado o valor aproximado 1x1021 m-3keVs, o progresso foi espetacular, comprovando a expectativa dos cientistas de fusao na década de setenta. Portanto,
do ponto de vista científico, "os problemas básicos da fusao nuclear",
aos quais se referiu o Prof. Cerqueira Leite, foram praticamente todos
solucionados. Certamente restam ainda problemas tecnológicos, como
danos de radiaçao na primeira parede do reator, previsao e controle de
instabilidades que possam romper a coluna de plasma, produçao e manejo
de trítio, etc. A investigaçao dessas questoes depende da construçao de
tokamaks maiores e mais próximos de dispositivos para produçao de
energia do que para investigaçao científica. No entanto, por razoes
políticas, incluindo o desmantelamento da Uniao Soviética, nenhum
tokamak maior que o JET foi construído nos últimos vinte anos, ou seja,
o atraso no desenvolvimento de reatores à fusao controlada nao se deve
à dificuldade em solucionar questoes básicas, como sugere o Prof.
Cerqueira Leite, mas à falta de investimento adequado, por razoes
políticas. Seria como criticar os físicos de alta energia por nao
descobrirem o bóson de Higgs, sem financiar a construçao de um
acelerador do porte do LHC, ou maior. Apesar dessas dificuldades,
os resultados obtidos na pesquisa da fusao nuclear controlada sao tao
sólidos e promissores que o projeto de engenharia do primeiro protótipo
de um reator à fusao, ITER, foi concluído por um consórcio de naçoes (www.iter.org).
O consórcio era originalmente formado por todos os países da Comunidade
Européia, Estados Unidos, Japao e Rússia; recentemente a China e a
Coréia se juntaram ao projeto. Atualmente há grande interesse da
Comunidade Européia em incluir também o Brasil e a India. Dois sítios
foram propostos para construçao do ITER, um na França e outro no Japao.
O forte interesse desses países em sediar o projeto, embora realce sua
importância, acabou por atrasar o início da construçao, já que a
decisao final depende de acordos políticos e diplomáticos. Mesmo assim,
os recursos necessários (cerca de seis bilhoes de dólares) já estao
alocados e, uma vez tomada a decisao sobre o sítio, a construçao do
ITER deverá se estender por aproximadamente oito anos e sua operaçao
por cerca de dez anos. Portanto, se as questoes técnicas que agora se
apresentam puderem ser todas resolvidas, é possível prever, sem falso
otimismo, que os primeiros reatores a fusao possam entrar em operaçao
até meados deste século, se houver vontade política para a empreitada.
Consideremos agora a tecnologia dos chamados reatores "inerentemente
seguros", de pequena potência (entre 100 e 300 MW), que o Prof.
Cerqueira Leite apregoa como a opçao ideal para o Programa Nuclear
Brasileiro, ao invés da construçao de Angra III. Conceitualmente, um
reator inerentemente seguro deveria ser baseado num
esquema tal que qualquer perturbaçao acidental no seu estado
estacionário de operaçao o levasse a um estado subcrítico, ou seja, a
uma reduçao do fluxo de nêutrons, e reduçao automática da temperatura
de seu núcleo, independentemente da açao de um sistema ativo de
controle. De fato, nenhum dos conceitos de reatores avançados, os
chamados "Reatores de Quarta Geraçao", satisfaz estritamente esta
condiçao e, por isso, os americanos e europeus preferem denominá-los "reatores com segurança passiva", um conceito que será mais bem explicado a seguir. Por
exemplo, o conceito do reator HTR (High-Temperature Reactor),
mencionado pelo Prof. Cerqueira Leite, está baseado no princípio de
que, no caso de um acidente extremo, com falha de todos os sistemas
ativos de controle e perda completa de refrigeraçao, sistemas de
atuaçao passiva garantiriam que o valor da temperatura dos elementos
combustíveis ficaria abaixo do limiar acima do qual haveria escape de
produtos radiativos para o meio ambiente, cerca de 1600oC
(IAEA-TECDOC-1198). Nesta situaçao, o resfriamento do núcleo deveria
ser possível sem atuaçao de sistemas ativos e o "apagamento" do reator
seria efetuado por elementos absorvedores que cairiam livremente em
orifícios de seu reflector, diminuindo o diâmetro efetivo do núcleo.
Naturalmente, embora este esquema seja conceitualmente mais atraente
que o utilizado em reatores convencionais, nao é inerentemente seguro.
Pode haver falhas estruturais ou tipos imprevistos de acidente que
impeçam a atuaçao adequada dos elementos passivos de controle, levando
ao escape incontrolável de radiaçao para o meio ambiente. Atualmente,
seis tipos de esquemas para reatores de quarta geraçao estao sendo
considerados, reator rápido refrigerado a gás (GFR - Gas-Cooled Fast
Reactor), reator a sal derretido (MSR - Molten Salt Reactor), reator
rápido refrigerado a chumbo (LFR - Lead-Cooled Fast Reactor), reator
rápido refrigerado a sódio (SFR - Sodium-Cooled Fast reactor), reator
refrigerado a água super crítico (SCWR - Super Critical Water Reactor)
e o reator a gás em alta temperatura (VHTR - Very High Temperature
Reactor). Todos estes conceitos sao baseados em projetos que procuram
maximizar a segurança, sustentaçao e economia dos reatores nucleares.
No entanto, apesar de que quase todos sejam, numa certa medida,
baseados em conhecimento e experiência existentes, todos extrapolam em
muito a tecnologia atual. Os aspectos mais críticos estao relacionados
a combustíveis e materiais. De fato, se estima que, mesmo que um
programa intenso e contínuo de investigaçao de reatores de quarta
geraçao seja lançado, serao necessários pelo menos vinte anos para
seleçao, teste e implementaçao comercial de novos materiais para o
combustível nuclear e elementos estruturais do circuito primário desses
reatores ("A technology Roadmap for Generation IV Nuclear Energy
Systems", Generation IV International Fórum - GIF-002-00). Portanto, a
idéia passada pelo Prof. Cerqueira Leite de que reatores de quarta
geraçao sao uma alternativa viável para Angra III, que pode ser
imediatamente implementada, é completamente irrealista! É
importante, ao investigar diferentes cenários para o Programa Nuclear
Brasileiro, considerar em detalhe o que está sendo feito em outros
países, separando questoes técnicas de idiossincrasias políticas. Por
exemplo, na Europa, a geraçao nuclear tem tido muito pouco suporte nas
duas últimas décadas, excetuando-se a França e Finlândia. A decisao dos
governantes europeus foi um tanto precipitada e inconseqüente, pois nao
se preocuparam em desenvolver soluçoes alternativas para substituir um
grande número de centrais nucleares que estao atingindo o fim de sua
vida útil. Além disso, segundo resultados de estudos recentes, será
praticamente impossível a Europa cumprir as metas estabelecidas no
Protocolo de Kyoto sem uma participaçao substancial da energia nuclear
em sua matriz energética. Diante deste cenário, o programa europeu
para a energia nuclear prevê, numa primeira etapa, a extensao da vida
útil de algumas usinas nucleares e a implantaçao de reatores baseados
num conceito modernizado de reatores de água leve pressurizada, EPR
(European Pressurized Water Reactor). No entanto, certamente há
consenso na Europa, e mesmo no cenário internacional, de que os
reatores de quarta geraçao serao necessários para implantaçao de um
programa sustentável de geraçao nuclear de energia, em longo prazo. Mas
também é consenso que um programa de desenvolvimento desses reatores é
tao caro que dificilmente poderia ser implementado por um único país;
como no caso da fusao nuclear, a colaboraçao entre vários países seria
o caminho mais indicado para esta empreitada. Finalmente, vamos
considerar a conveniência ou nao de terminar o reator Angra III, que,
segundo o Prof. Cerqueira Leite, é baseado num "projeto de meados da
década de 70, uma tecnologia obsoleta". Angra III é reator resfriado a
água pressurizada, PWR (Pressurized-Water Reactor). Atualmente, existem
cerca de quatrocentos e quarenta centrais nucleares em operaçao no
mundo, todas baseadas em reatores refrigerados a água, PWR, BWR
(Boiling-Water Reactor) ou HWR (Heavy-Water Reactor). Portanto, há
enorme experiência acumulada na operaçao e segurança desses tipos de
reatores e, de fato, as cerca de trinta centrais atualmente em
construçao sao de reatores desses tipos. Os reatores EPR, por exemplo,
sao PWRs, de um modelo mais avançado que Angra II, mas sem uma
diferença significante nos componentes mecânicos e com o conceito
alemao de quatro redundâncias, como Angra II e Angra III. Naturalmente
a instrumentaçao e os sistemas de controle serao muito mais modernos,
dado o avanço da eletrônica nas ultimas duas décadas. Mas esta
modernizaçao pode ser também implementada em Angra III, tendo em vista
que a instrumentaçao e o sistema de controle ainda nao foram adquiridos. Considerando
que o parque de tecnologia nuclear já instalado pelo Brasil, incluindo
enriquecimento de urânio e fabricaçao de combustível nuclear, só
atingirá uma situaçao sustentável de oferta e demanda com a instalaçao
de pelo menos mais uma central nuclear, que a oferta atual de energia
elétrica nao suporta um crescimento mais acelerado de nossa economia e
que já foi feito um grande investimento em Angra III, acredito que a
opçao de terminar esta central seja absolutamente correta. No
entanto, em concordância com o princípio da proposta do Prof. Cerqueira
Leite, o Programa Nuclear Brasileiro nao deve se resumir a esta
iniciativa. Para garantir o acesso de nosso País a tecnologias
avançadas, que muito provavelmente serao relevantes no futuro, seria
desejável que participássemos efetivamente nas colaboraçoes
internacionais voltadas ao desenvolvimento de reatores de quarta
geraçao e de fusao.
Ricardo M.O. Galvao CBPF
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