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A
descoordenaçao entre as agências do Governo Federal relativas às
universidades nao vem de hoje. Nos diversos governos da Nova República
- Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique - a crescente
descentralizaçao econômica, com a diminuiçao do dirigismo em Brasília,
ocorreu simultaneamente com o crescente dirigismo das agências
financiadoras e com o virtual fim dos editais universais. A pesquisa
deve ser dirigida a partir de editais específicos.
No atual
Governo estas duas tendências - descoordenaçao e dirigismo - estao se
acirrando. Frequentemente há a impressao de que o CNPq/MCT, a
CAPES/MEC, a SESU/MEC, o Ministério da Administraçao, o Ministério do
Planejamento, a FINEP e o BNDES sao administradas a partir de propostas
políticas de partidos distintos. A Finep administra os Fundos Setoriais
de pesquisa mas o BNDES faz de conta que as universidades e a pesquisa
nao existem. O MEC quer preencher pequena parte das vagas docentes na
universidades federais e o MARE atrasa até a nomeaçao dos aprovados em
concursos, como fez em meados de 2004.
Nas universidades
federais onde um docente frequentemente assume funçoes administrativas
muito além do que seria razoável, isto é terrível. A universidade cobra
horas de aula, quer seja Física I ou Mecânica Quântica. O CNPq cobra
artigos em revistas indexadas, no minimo três por ano. Os pesquisadores
ativos, publicando um ou dois ao ano, frequentemente experimentais,
foram jogados junto com o grupo de professores que nao faz ou até nunca
fez pesquisa. Na divisao demagógica que se ouve nas universidades
federais sao os professores da graduaçao CONTRA os pesquisadores
elitistas...
E todo o resto de atividades? Quem vai fazer uma
homepage para um grupo, um departamento, uma unidade, ou mesmo uma
disciplina? Quem vai fazer a burocracia de importar um equipamento, ou
querer gastar anos o instalando? Quem vai assumir um cargo num
colegiado ou ser coordenador de curso? Quem vai preencher os dados do
DataCAPES? Quem vai iniciar uma linha de pesquisa nova?
Infelizmente outras açoes descoordenadas do Governo Federal tem um peso catastrófico similar.
1)
A GED tinha um pouco esse papel de incentivar pessoas mas agora está
sendo eliminada - como diversas açoes governamentais o tempo verbal tem
que ser escolhido para ser vago. Os dados da GED eram enviados para o
formulário DataCAPES, facilitando em muito o preenchimento deste. Agora
piorará em geral a qualidade desta coleta de dados, com peso maior
recaindo nos programas menores e menos estruturados.
2) A CAPES
deixou de assinar em 2003 revistas em papel, um programa que sempre
existiu. Hoje, se as revistas nao estao no Portal Periódicos, elas nao
existem. Em 1998, no ano áureo de assinaturas, gastaram-se cerca de 20
milhoes de dólares. Com a desvalorizaçao do real e a necessidade de
haver um acesso a um núcleo mínimo de revistas em âmbito nacional
criou-se o Portal. Com o atual governo o Portal foi usado como desculpa
para tornar as bibliotecas universitárias em depósitos de revistas
velhas. Agora o Portal está sendo piorado, só dá acesso para as
revistas dos últimos anos. No Rio temos o CBPF, que continua assinando
muitas revistas importantes fora do Portal como as do Institute of
Physics. No Estado de Sao Paulo as universidades continuam a assinar
revistas mas, e fora desses lugares? Como é que um pesquisador de Belo
Horizonte, Recife ou Porto Alegre vai ter acesso aos "Journal of
Physics"?
3) Numa terceira açao o MEC diminuiu a pressao que o
Provao fazia sobre a qualidade das universidades privadas, elas agora
nao precisam apoiar a pesquisa e contratar pesquisadores.
4)
Numa quarta açao o CNPq resolveu obrigar os recém doutores a ficar três
anos desempregados ou trabalhando em universidades particulares, pois o
governo sabe que se formam 8 mil doutores ao ano e que as universidades
federais - o maior empregador - devem oferecer 2 mil vagas docentes em
2005. Por outro lado os 6 mil que sobram nao podem ir para as
universidades privadas, que estao demitindo seus doutores, nem fazer
pós-doutorado.
5) Numa quinta açao o MEC lança uma proposta de
Reforma Universitária com elementos desconexos - ciclo básico, fim de
departamentos, cotas raciais e sociais, eleiçao direta do reitor,
colegiado para controle externo sobre as universidades -mas,
paralelamente, o mesmo governo resolve comprar vagas nas instituiçoes
privadas, como se nada pudesse esperar da gigantesca soma de recursos
humanos e materiais da sua rede de universidades.
Enfim, a
pesquisa em física e na ciência em geral, assim como o funcionamento
das universidades, estao sendo distorcidos e desincentivados por esse
conjunto de açoes contraditórias.
Atenciosamente, Luiz Felipe S. Coelho IF-UFRJ
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