Sociedade Brasileira de Física 

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  Boletim [001/2004]
  A UNIVERSIDADE DO AMANHA NO BRASIL (por Alfredo Gontijo de Oliveira)

 

A UNIVERSIDADE DO AMANHA NO BRASIL1


Funeral by funeral, theory (a universidade) advances.
Paul Samuelson


Alfredo Gontijo de Oliveira
alfredo@fisica.ufmg.br


Está bastante disseminada a crença de que a universidade já nao mais consegue justificar-se de forma auto?referenciada, como fez no passado, e anda à procura de outros parâmetros para estabelecer a sua identidade. A sociedade, tendo acesso fácil às informaçoes e ao conhecimento gerado por várias instituiçoes, inclusive pela universidade, está demandando a criaçao de uma nova identidade desta instituiçao que foi relevante para a construçao do mundo contemporâneo. A perda da hegemonia de centro gerador do conhecimento concedeu à opiniao da sociedade, historicamente alijada da definiçao da missao universitária, o status de uma nova força impulsora forte e capaz de produzir mudanças de impacto na instituiçao universitária. Dessa forma, a excelência e os indicadores de desempenho, agora postos de forma tao forte pela opiniao da sociedade, nao significam nada mais do que fundamentos para uma auto-reflexao com base em valores econômicos, estabelecidos pela cultura dos bens de consumo de base material, industrial e tecnológica. Ao se devotar culturalmente à excelência e aos indicadores de desempenho, a universidade se burocratiza e, portanto, se engessa. Ela restringe as forças de evoluçao e limita sua potencialidade de gerar contribuiçoes para estruturar a sociedade, que sempre a caracterizaram no passado.

Depois de tantos ciclos e modelos, e apesar de toda aparência de robustez do ciclo atual, a "universidade transnacional empresarial" apresenta sinais de exaustao. Assim, para além da excelência e de indicadores, reflexoes que possam ajudar a fundamentar a construçao da universidade do amanha sao relevantes e, para isso, daremos destaque para alguns pontos específicos.


· Aceitando-se que a excelência, como estabelecido atualmente, nao serve de base conceitual para fundamentar as mudanças, precisamos redefini-la para projetar o futuro. A redefiniçao da excelência, com base num modelo conexionista, aquele que permite avançar no estudo pela quebra de um sistema em sub-sistemas e estabelecer conexoes entre eles, fornece uma boa alternativa para fundamentar o provérbio: pan metrum ariston (tudo na justa medida é excelente). De fato, cada sub-sistema pode ser assim "medido" de forma justa. O coletivo dos sub-sistemas diferenciados é que pode estabelecer a base para uma nova definiçao de excelência. Um aspecto importante no setor público para se conseguir essa quebra em sub-sistemas é através da autonomia universitária. De um lado ela permite romper com a estrutura padronizada das instituiçoes e de outro lado permite-se aumentar a complexificaçao das unidades geradoras do conhecimento, para além da pesquisa individual e do departamento disciplinar.

· Existe um bom estoque de informaçoes e trabalhos que permitem descrever a atual instituiçao universitária no Brasil. Os dados parecem sinalizar para a exaustao do atual modelo em funçao da grande quantidade de pessoas, órgaos, setores sociais falando e refletindo sobre uma "reforma universitária". Esses dados e propostas sao importantes para ajudar a encontrar novas rotas.

· Claramente, e de forma irreversível, o Brasil já fez a opçao pelo sistema misto de ensino superior, em que parte é de responsabilidade direta do poder público e parte de responsabilidade do setor privado. Nesse momento, o conhecimento desse sistema misto é importante para definir missoes que incorporem características de parceria e de competitividade. A grande diversidade de instituiçoes privadas, basicamente estruturadas como instituiçoes de ensino, sugere que estamos construindo um modelo que procura gerar respostas para todas as demandas, que é uma das características da "universidade transnacional empresarial", nesse caso referenciada preferencialmente pelas regras de mercado.

· Ao nível internacional, e com base em dados já bastante trabalhados na literatura, evidencia-se o fim de um grande ciclo na trajetória da instituiçao universitária. O modelo vigente, o da "universidade transnacional empresarial", nao consegue dar respostas para produzir avanços significativos nas grandes questoes sociais e humanas, apesar do fabuloso avanço científico e tecnológico que ela produziu, principalmente depois da segunda guerra mundial e que continua a produzir numa velocidade cada vez maior. Assim, vivemos a contradiçao de que enquanto "a universidade transnacional empresarial" mostra sinais de exaustao no exterior, procura-se robustecer o modelo no Brasil.

· O modelo atual da instituiçao universitária, com base numa abordagem disciplinar do saber, que fez a robustez da instituiçao no passado e ainda o faz no presente, nao consegue propor, fundamentar e implementar novos processos de geraçao, organizaçao e disseminaçao do conhecimento. Nao consegue também estabelecer as bases para equacionar o financiamento das atividades afins às instituiçoes universitárias: ensino, pesquisa e extensao. Dessa forma, compromete-se o futuro. A instituiçao universitária encontra-se diante de barreiras intransponíveis se forem tratadas à luz das metodologias disciplinares que ela vem rotineiramente utilizando. A estruturaçao da universidade em departamentos disciplinares, ocorrida na reforma universitária de 1968, já demanda o próximo avanço, ampliando a complexidade da unidade geradora de conhecimento, através de processos que permitam trabalhar as interfaces de áreas. Várias iniciativas de romper com a estrutura departamental estao sendo trabalhadas em instituiçoes públicas e privadas. Por exemplo, algumas instituiçoes estao trabalhando a partir de núcleos temáticos, para além das limitaçoes impostas pelos interesses pessoais e determinaçoes dos departamentos disciplinares.

· Por se tratar de uma crise epistemológica, as alternativas viáveis para a universidade do amanha se darao através de açoes de envergadura. A internalizaçao no Brasil de modelos que estao sendo questionados, na atualidade, em países desenvolvidos deve ser vista de forma crítica e com cautela. Da mesma forma que a física quântica revolucionou a física clássica e introduziu o "tunelamento" para descrever efeitos de passagem através de barreiras classicamente instransponíveis, o momento atual está demandando novas abordagens que permitam produzir "tunelamentos" através das barreiras metodológicas e disciplinares para tratar as questoes sociais e humanas, aproximando-as das ciências exatas e vice-versa. As fases de dar sobrevida à instituiçao universitária através de pequenas mudanças já se esgotaram. Nos encontramos em condiçoes que demandam mudanças de maior envergadura, sob pena de se criar um vazio conceitual na geraçao, organizaçao e disseminaçao do conhecimento, com riscos de produzir enormes danos para a evoluçao da sociedade e das geraçoes futuras.

· A estrutura unificada e referenciada em Brasília no período que sucedeu a reforma universitária de 1968 foi importante para fundamentar os valores sociais advindos da cultura científica. Agora, conceitos científicos novos mostram que os fenômenos naturais sao importantes em todas as escalas e, em conseqüência, permitem trabalhar a eliminaçao da "arrogância do poder" pela introduçao do processo de "desreferenciamento". O referenciamento absoluto, estabelecido pelo MEC, perde também o seu significado quando a ciência contemporânea afirma que o observador é parte integrante e indissociável do sistema observado e que padroes auto-organizados surgem espontaneamente em processos de elevada complexidade. Assim, a construçao da universidade do amanha deve ser um processo coletivo, envolvendo variados atores sociais.

· Em apologia à diversidade, flexibilidade e complexidade e na procura de uma unificaçao aberta, a ciência estabelece parâmetros que permitem a construçao de boas metáforas para fundamentar a construçao da universidade do amanha.

· Uma grande força de reaçao às mudanças emana do corpo docente das instituiçoes universitárias, que vive a esquizofrênica condiçao de reconhecer a necessidade de mudanças, mas, ao mesmo tempo, nao se engaja nos processos renovadores por angústia, excesso de atividades e acomodaçao. Balizado por referenciais acadêmicos de trinta anos atrás, o corpo docente nao tem conseguido romper com o modelo vigente, se modernizar e projetar o futuro.



As ciências exatas e em particular a física, fornecem uma base reflexiva que pode ajudar a pensar a universidade do amanha. A instituiçao universitária e, por conseqüência, o processo de gerar, organizar e disseminar o conhecimento nao pode nem deve ser referenciado empiricamente pelo potencial de aplicabilidade. Ela nao pode também ser sustentada sem referências, sob pena de cair no niilismo absoluto ou com base em auto-referências, que foi parte do passado mais nao mais é aceito pela sociedade. As abordagens contemporâneas oferecem alternativas novas, pois permitem criar modelos de referenciamento relativo, que nega o referenciamento absoluto e o referenciamento pulverizado ao nível do indivíduo. Essa opçao pelo referenciamento relativo, por ter a propriedade de ser invariante de escala, pode operar no nível do indivíduo, da instituiçao, do regional, do nacional e do global. Cria-se, assim, condiçoes para que se possa fazer o referenciamento a partir de julgamento pelos pares, em unidades de maior complexidade que os departamentos disciplinares, com o olhar aberto para admitir as interfaces de áreas do conhecimento. Se em todo o ciclo da cultura científica essa questao do referenciamento absoluto (autoritário e arrogante) foi sempre uma constante para fundamentar as açoes e a criaçao de instituiçoes e programas, temos, pela primeira vez, as bases científicas para trabalhar novos modelos. Assim, temos condiçoes de evitar a radicalizaçao do individualismo ou o autoritarismo messiânico.

Em suma, as grandes questoes que parecem estar postas sobre as "reformas da universidade" sao:

1. sem prejuízo para a pesquisa disciplinar, romper com a estrutura departamental disciplinar, criando unidades geradoras do conhecimento de maior complexidade, operando nas interfaces inter-áreas;

2. operar com autonomia, rompendo com a estrutura centralizadora das instituiçoes universitárias públicas, pois sao todas diferentes;

3. promover a construçao de cenários em que os docentes se engajem em contínuos processos de mudança;

4. utilizar metodologias, fundamentadas na diversidade, na flexibilidade e na autonomia, trabalhando o espaço vazio entre e além das disciplinas;

5. em decorrência, promover a diversidade e a flexibilidade também nas formas de financiar as instituiçoes.


1Essas reflexoes têm por base um artigo recente publicado na Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 81, pg. 316-341, 2002, tendo como título "Preparando o futuro: educaçao, ciência e tecnologia - suas implicaçoes para a formaçao da cidadania".

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