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A UNIVERSIDADE DO AMANHA NO BRASIL1
Funeral by funeral, theory (a universidade)
advances. Paul Samuelson
Alfredo Gontijo de Oliveira alfredo@fisica.ufmg.br
Está
bastante disseminada a crença de que a universidade já nao mais consegue
justificar-se de forma auto?referenciada, como fez no passado, e anda à
procura de outros parâmetros para estabelecer a sua identidade. A
sociedade, tendo acesso fácil às informaçoes e ao conhecimento gerado por
várias instituiçoes, inclusive pela universidade, está demandando a
criaçao de uma nova identidade desta instituiçao que foi relevante para a
construçao do mundo contemporâneo. A perda da hegemonia de centro gerador
do conhecimento concedeu à opiniao da sociedade, historicamente alijada da
definiçao da missao universitária, o status de uma nova força impulsora
forte e capaz de produzir mudanças de impacto na instituiçao
universitária. Dessa forma, a excelência e os indicadores de desempenho,
agora postos de forma tao forte pela opiniao da sociedade, nao significam
nada mais do que fundamentos para uma auto-reflexao com base em valores
econômicos, estabelecidos pela cultura dos bens de consumo de base
material, industrial e tecnológica. Ao se devotar culturalmente à
excelência e aos indicadores de desempenho, a universidade se burocratiza
e, portanto, se engessa. Ela restringe as forças de evoluçao e limita sua
potencialidade de gerar contribuiçoes para estruturar a sociedade, que
sempre a caracterizaram no passado.
Depois de tantos ciclos e
modelos, e apesar de toda aparência de robustez do ciclo atual, a
"universidade transnacional empresarial" apresenta sinais de exaustao.
Assim, para além da excelência e de indicadores, reflexoes que possam
ajudar a fundamentar a construçao da universidade do amanha sao relevantes
e, para isso, daremos destaque para alguns pontos específicos.
· Aceitando-se que a excelência, como estabelecido
atualmente, nao serve de base conceitual para fundamentar as mudanças,
precisamos redefini-la para projetar o futuro. A redefiniçao da
excelência, com base num modelo conexionista, aquele que permite avançar
no estudo pela quebra de um sistema em sub-sistemas e estabelecer
conexoes entre eles, fornece uma boa alternativa para fundamentar o
provérbio: pan metrum ariston (tudo na justa medida é excelente). De
fato, cada sub-sistema pode ser assim "medido" de forma justa. O
coletivo dos sub-sistemas diferenciados é que pode estabelecer a base
para uma nova definiçao de excelência. Um aspecto importante no setor
público para se conseguir essa quebra em sub-sistemas é através da
autonomia universitária. De um lado ela permite romper com a estrutura
padronizada das instituiçoes e de outro lado permite-se aumentar a
complexificaçao das unidades geradoras do conhecimento, para além da
pesquisa individual e do departamento disciplinar.
· Existe um
bom estoque de informaçoes e trabalhos que permitem descrever a atual
instituiçao universitária no Brasil. Os dados parecem sinalizar para a
exaustao do atual modelo em funçao da grande quantidade de pessoas,
órgaos, setores sociais falando e refletindo sobre uma "reforma
universitária". Esses dados e propostas sao importantes para ajudar a
encontrar novas rotas.
· Claramente, e de forma irreversível, o
Brasil já fez a opçao pelo sistema misto de ensino superior, em que
parte é de responsabilidade direta do poder público e parte de
responsabilidade do setor privado. Nesse momento, o conhecimento desse
sistema misto é importante para definir missoes que incorporem
características de parceria e de competitividade. A grande diversidade
de instituiçoes privadas, basicamente estruturadas como instituiçoes de
ensino, sugere que estamos construindo um modelo que procura gerar
respostas para todas as demandas, que é uma das características da
"universidade transnacional empresarial", nesse caso referenciada
preferencialmente pelas regras de mercado.
· Ao nível
internacional, e com base em dados já bastante trabalhados na
literatura, evidencia-se o fim de um grande ciclo na trajetória da
instituiçao universitária. O modelo vigente, o da "universidade
transnacional empresarial", nao consegue dar respostas para produzir
avanços significativos nas grandes questoes sociais e humanas, apesar do
fabuloso avanço científico e tecnológico que ela produziu,
principalmente depois da segunda guerra mundial e que continua a
produzir numa velocidade cada vez maior. Assim, vivemos a contradiçao de
que enquanto "a universidade transnacional empresarial" mostra sinais de
exaustao no exterior, procura-se robustecer o modelo no Brasil.
· O modelo atual da instituiçao universitária, com base numa
abordagem disciplinar do saber, que fez a robustez da instituiçao no
passado e ainda o faz no presente, nao consegue propor, fundamentar e
implementar novos processos de geraçao, organizaçao e disseminaçao do
conhecimento. Nao consegue também estabelecer as bases para equacionar o
financiamento das atividades afins às instituiçoes universitárias:
ensino, pesquisa e extensao. Dessa forma, compromete-se o futuro. A
instituiçao universitária encontra-se diante de barreiras
intransponíveis se forem tratadas à luz das metodologias disciplinares
que ela vem rotineiramente utilizando. A estruturaçao da universidade em
departamentos disciplinares, ocorrida na reforma universitária de 1968,
já demanda o próximo avanço, ampliando a complexidade da unidade
geradora de conhecimento, através de processos que permitam trabalhar as
interfaces de áreas. Várias iniciativas de romper com a estrutura
departamental estao sendo trabalhadas em instituiçoes públicas e
privadas. Por exemplo, algumas instituiçoes estao trabalhando a partir
de núcleos temáticos, para além das limitaçoes impostas pelos interesses
pessoais e determinaçoes dos departamentos disciplinares.
· Por
se tratar de uma crise epistemológica, as alternativas viáveis para a
universidade do amanha se darao através de açoes de envergadura. A
internalizaçao no Brasil de modelos que estao sendo questionados, na
atualidade, em países desenvolvidos deve ser vista de forma crítica e
com cautela. Da mesma forma que a física quântica revolucionou a física
clássica e introduziu o "tunelamento" para descrever efeitos de passagem
através de barreiras classicamente instransponíveis, o momento atual
está demandando novas abordagens que permitam produzir "tunelamentos"
através das barreiras metodológicas e disciplinares para tratar as
questoes sociais e humanas, aproximando-as das ciências exatas e
vice-versa. As fases de dar sobrevida à instituiçao universitária
através de pequenas mudanças já se esgotaram. Nos encontramos em
condiçoes que demandam mudanças de maior envergadura, sob pena de se
criar um vazio conceitual na geraçao, organizaçao e disseminaçao do
conhecimento, com riscos de produzir enormes danos para a evoluçao da
sociedade e das geraçoes futuras.
· A estrutura unificada e
referenciada em Brasília no período que sucedeu a reforma universitária
de 1968 foi importante para fundamentar os valores sociais advindos da
cultura científica. Agora, conceitos científicos novos mostram que os
fenômenos naturais sao importantes em todas as escalas e, em
conseqüência, permitem trabalhar a eliminaçao da "arrogância do poder"
pela introduçao do processo de "desreferenciamento". O referenciamento
absoluto, estabelecido pelo MEC, perde também o seu significado quando a
ciência contemporânea afirma que o observador é parte integrante e
indissociável do sistema observado e que padroes auto-organizados surgem
espontaneamente em processos de elevada complexidade. Assim, a
construçao da universidade do amanha deve ser um processo coletivo,
envolvendo variados atores sociais.
· Em apologia à diversidade,
flexibilidade e complexidade e na procura de uma unificaçao aberta, a
ciência estabelece parâmetros que permitem a construçao de boas
metáforas para fundamentar a construçao da universidade do amanha.
· Uma grande força de reaçao às mudanças emana do corpo docente
das instituiçoes universitárias, que vive a esquizofrênica condiçao de
reconhecer a necessidade de mudanças, mas, ao mesmo tempo, nao se engaja
nos processos renovadores por angústia, excesso de atividades e
acomodaçao. Balizado por referenciais acadêmicos de trinta anos atrás, o
corpo docente nao tem conseguido romper com o modelo vigente, se
modernizar e projetar o futuro.
As ciências
exatas e em particular a física, fornecem uma base reflexiva que pode
ajudar a pensar a universidade do amanha. A instituiçao universitária e,
por conseqüência, o processo de gerar, organizar e disseminar o
conhecimento nao pode nem deve ser referenciado empiricamente pelo
potencial de aplicabilidade. Ela nao pode também ser sustentada sem
referências, sob pena de cair no niilismo absoluto ou com base em
auto-referências, que foi parte do passado mais nao mais é aceito pela
sociedade. As abordagens contemporâneas oferecem alternativas novas, pois
permitem criar modelos de referenciamento relativo, que nega o
referenciamento absoluto e o referenciamento pulverizado ao nível do
indivíduo. Essa opçao pelo referenciamento relativo, por ter a propriedade
de ser invariante de escala, pode operar no nível do indivíduo, da
instituiçao, do regional, do nacional e do global. Cria-se, assim,
condiçoes para que se possa fazer o referenciamento a partir de julgamento
pelos pares, em unidades de maior complexidade que os departamentos
disciplinares, com o olhar aberto para admitir as interfaces de áreas do
conhecimento. Se em todo o ciclo da cultura científica essa questao do
referenciamento absoluto (autoritário e arrogante) foi sempre uma
constante para fundamentar as açoes e a criaçao de instituiçoes e
programas, temos, pela primeira vez, as bases científicas para trabalhar
novos modelos. Assim, temos condiçoes de evitar a radicalizaçao do
individualismo ou o autoritarismo messiânico.
Em suma, as grandes
questoes que parecem estar postas sobre as "reformas da universidade" sao:
1. sem prejuízo para a pesquisa disciplinar, romper com
a estrutura departamental disciplinar, criando unidades geradoras do
conhecimento de maior complexidade, operando nas interfaces inter-áreas;
2. operar com autonomia, rompendo com a estrutura centralizadora
das instituiçoes universitárias públicas, pois sao todas diferentes;
3. promover a construçao de cenários em que os docentes se
engajem em contínuos processos de mudança;
4. utilizar
metodologias, fundamentadas na diversidade, na flexibilidade e na
autonomia, trabalhando o espaço vazio entre e além das
disciplinas;
5. em decorrência, promover a diversidade e a
flexibilidade também nas formas de financiar as
instituiçoes.
1Essas
reflexoes têm por base um artigo recente publicado na Revista Brasileira
de Estudos Pedagógicos, v. 81, pg. 316-341, 2002, tendo como título
"Preparando o futuro: educaçao, ciência e tecnologia - suas implicaçoes
para a formaçao da cidadania".
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